Related »

A Gazeta – MT – Arara-azul custa US$ 60 mil

on março 17 | em FIQUE POR DENTRO, Renctas na Mídia | by | with No Comments

Sílvio Carvalho
Da Redação

Tráfico de bichos silvestres movimenta bilhões, sendo a terceira maior fonte de renda ilícita do mundo

O tráfico de animais silvestres movimenta de US$ 10 bilhões a US$ 20 bilhões por ano, em todo o mundo, e se consolida como a terceira maior fonte de renda ilícita do planeta, perdendo apenas para o tráfico de armas e drogas. Relatório do Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que a atividade está intimamente relacionada a outras ações ilícitas, como venda de drogas.

O Brasil participa com cerca de 5% a 20% desse movimento e exporta animais a grandes centros do mercado externo. Mato Grosso tem a peculiaridade de traficar, sobretudo, araras, papagaios e periquitos. Uma arara-azul-de-lear capturada na região chega a custar US$ 60 mil no mercado externo. Na ponta desse processo está a população de áreas ribeirinhas, que é responsável pelo fornecimento dos animais.

As apreensões realizadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) entre 1992 e 2000 no Centro-Oeste somam 28.312 exemplares e ultrapassam as regiões Sul (11.993) e Sudeste (33.725). O Nordeste é o recordista com 108.041 animais. Ao todo, no Brasil foram apreendidos 263.972, no mesmo período.

Os dados constam do 1º Relatório Nacional sobre o Tráfico de Fauna Silvestre elaborado em 2001 pela organização não-governamental (ONG) Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas). “Um animal vendido por cinco reais a um traficante pode ser comercializado por cinco mil dólares”, exemplifica o coordenador-executivo, da ONG, Rauff Lima. “O ribeirinho não tem noção do mal que está causando quando vende estes animais aos traficantes”, completa.

Apesar de ser um mercado eclético capaz de absorver desde aranhas e sapos amazônicos até primatas, as aves são as maiores vítimas. De acordo com dados do próprio Ibama/MT, cerca de 70% das apreensões são de araras-azuis, periquitos e papagaios. Em 2000, foram 19 autos de infração, o que correspondeu a 99 animais cujas multas chegaram a R$ 135,41 mil. Em 2001, o órgão lavrou 10 autos para 114 animais, o equivalente a R$ 63,83 mil.

Os números mostram uma carência estrutural do Ibama. São 64 fiscais para atuar em todo o território mato-grossense. “O ideal seria mais 180 profissionais”, estima o chefe de fiscalização, Marcos Pinto. Com o concurso público para fiscal, ele estima que sejam contratados mais 150 pessoas para o Estado.

O titular da Delegacia da Ordem Política e Social (Delops), Marcos Aurélio Costa Lima, informa que a Polícia Federal (PF) em Cuiabá ainda não instaurou um inquérito para apurar as denúncias de tráfico de animais silvestres. “Vinte e cinco por cento do trabalho da delegacia se referem ao meio ambiente e não houve nem mesmo um relatório sobre o assunto feito pela Ibama”, explica o delegado, acrescentando que tal fato aponta para a “inoperância” do órgão.

Para ele, o Estado brasileiro é “negligente” com a segurança pública. Marcos Aurélio atua na delegacia há dois anos e meio. Sem o auxílio de profissionais do Ibama, a PF restringe-se a ações pontuais.

O chefe de fiscalização do Ibama argumenta que os trabalhos de apreensão de animais ocorrem com maior frequência no interior do Estado. Em função disso, as cópias dos autos de infração e apreensão são encaminhadas ao Ministério Público Federal (MPF) do interior. “Se não há inquérito é porque não está na nessa circunscrição”, afirma.

Mas essa é uma situação que atinge vários setores dos órgãos públicos, que trabalham com a falta de pessoal, de material e até mesmo de treinamento.

Mortes – As consequências do tráfico para a biodiversidade são um impressionante índice de mortalidade que chega a mais de 80%. Para escapar da fiscalização, os traficantes colocam os bichos mal- acondicionados. Os animais chegam a ficar horas no interior de ônibus, até passar pela alfândega para atingir o mercado externo.

Uma das principais causas das mortes são os maus-tratos. Os olhos das aves são furados e os macacos recebem álcool e pinga nas veias. Muitos são dopados As estratégias utilizadas pelos traficantes visam acalmá-los ou, pelo menos, impedir que façam ruídos e chamem a atenção de estranhos.

O chefe-substituto do Núcleo de Fauna do Ibama, Edberto Nascimento, conta que eles chegam a ser escondidos até em tubos de PVC. “Ficam sem ventilação, sem alimentos e água”, informa. Ele acrescenta que esta violência atinge cerca de 90% das vítimas de tráfico. O secretário-executivo da Renctas, Rauff Lima, é mais incisivo e estima que, para cada dez animais que chegam ao consumidor, outros nove morrem. O lucro obtido com esse esquema só perde para o das armas e o das drogas, com a qual acaba se relacionando. Rauff explica que existem diversos mercados consumidores para os animais traficados. Os pet shop europeus, americanos e asiáticos são responsáveis pela demanda de aves (como araras e papagaios), iguanas, jibóias e a periquitambóia – nome indígena da cobra-papagaio amazônica. Colecionadores e zoológicos adquirem animais de maior porte, entre felinos e grande primatas, jacarés, sucuris e animais ameaçados de extinção. Outra parcela do mercado é composta por setores que trabalham com os princípios ativos – a biopirataria. São serpentes, aranhas e sapos amazônicos, entre outros, cujos princípios são, no fim do processo, patenteados pelas indústrias químicas internacionais.

“Todos eles movimentam grandes cifras”, resume o secretário-executivo. Grande parte permanece no mercado interno, compondo o tráfico doméstico.

Segundo ele, a Renctas conseguiu detectar 400 quadrilhas agindo no Brasil. “São bem organizadas, equipadas e estruturadas”, garante. Para otimizar o esquema, são usadas diversas estratégias cujo objetivo é dar eficiência ao escoamento de todo esse contingente de animais.

Cerca de 50% do escoamento em Mato Grosso se dão através de estradas e rodovias, 40% por aviões e os 10% restantes por meio de embarcações. A fronteira seca do Brasil com a Bolívia e o Uruguai também contribui para o tráfico. Em outros países, os animais passam a ser legalizados. “Chegam a receber documentos falsos emitidos por órgãos governamentais”, explica Rauff.

As legislações próprias vigentes em cada país do Cone Sul dificultam a fiscalização e abrem brechas legais aos traficantes. Em 2001 foi realizada a 1ª Conferência Sul-americana sobre Comércio Ilegal de Fauna, cuja proposta foi a de elaborar uma norma única para todos os países. Apesar da sinalização, hoje a lei brasileira permite penas alternativas. “Queremos uma diferenciação entre o pequeno e o grande traficante”, afirma o secretário da Renctas.

Ele cita como exemplo o caso de infratores que comercializam uma arara-azul-de-lear por US$ 80 mil no mercado externo e são condenados a pagar uma multa de R$ 5 mil. “É preciso que existam sentenças para esses crimes”, especifica. A ONG está encaminhando propostas a deputados e senadores. “Além do crime de comprar um animal não-criado em cativeiro, a pessoa pode ainda estar levando doença à sua família”, alerta.

Traficante – “Quem é o traficante?”, indaga o coordenador de Gestão do Uso de Espécies da Fauna, do Ibama em Brasília, Fernando Dal”Ava. “É aquele camarada em que todo dia entra e sai animais em grande quantidade de sua casa”, responde.

Denúncias anônimas podem ser feitas pela “Linha Verde”, do Ibama, cujo número é 0800-616161. Um dos grandes problemas do tráfico de animais silvestres é que a devolução deles ao habitat natural é muito cara e demorada.

Apesar da falta de estrutura, Fernando avalia que a fiscalização foi “mais eficiente” em 2001. Mas admite que a divisão necessita de, no mínimo, mais cinco mil profissionais para todo o país. Há dois tipos de regiões no Brasil relacionadas ao tráfico. A receptora é a Centro-Sul e as fornecedoras são o Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo são responsáveis por quase toda a demanda.

Mercado – O perfil dos compradores são de colecionadores ilegais e minizoológicos que não têm autorização do Ibama. Os primatas são fornecidos, basicamente, pelo Norte. Os passarinhos, pelo Nordeste. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul concentram o escoamento ilegal de araras-azuis e papagaios.

“A diferença na legislação facilita o tráfico”, pondera o chefe-substituto do Núcleo Fauna do Ibama, Ediberto. Por exemplo, na Bélgica não há exigência de licenças para criar macacos. O manejo de parques, muito usado na África, é outro fator internacional que contribui para a consolidação do tráfico. Os excedentes são tirados de tais áreas e colocados à venda no mercado externo. Esse países são os vendedores de animais.

Ediberto acrescenta que o tráfico se afunila até se centralizar em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto de Paranaguá (Paraná). Fernando estima que o mercado europeu responde por cerca de 70% das compras ilegais de animais. O restante vai para os Estados Unidos. No topo da lista estão as araras e papagaios. “O grande problema é acabar com o comprador”, opina Edberto, considerando que ainda existe a cultura de se criar animal silvestre em casa. O chefe do Núcleo estima que pelo menos 70% das residências de Cuiabá abrigam animais silvestres. “E desestimular essa cultura é muito difícil”, complementa.

Internet – Pesquisa da Renctas, em 1999, descobriu que o tráfico ocorre também pela Internet. Havia cerca de 4.892 anúncios em sites nacionais e internacionais para compra, venda ou mesmo troca de animais. De acordo com a ONG, a cada ano o movimento médio chega a 25 mil primatas e de dois milhões a cinco milhões de aves vivas. O tráfico seria responsável pela retirada, a cada ano, de 12 milhões de espécies do Brasil

Pin It

Related Posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

« »

Scroll to top