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Chimpanzés infectados e abandonados por laboratório de NY “colonizam” ilhas africanas

on setembro 26 | em Fauna na Mídia, FIQUE POR DENTRO | by | with No Comments

Em artigo para a BBC, biólogo diz que banco de sangue americano criou projeto na Libéria em 1974 para desenvolver vacinas por meio de testes com primatas, mas no ano passado voltou atrás de promessa de custear cuidados dos animais após fim de experimentos.

26/09/2016 – 09h17
G1 – Com informações da BBC Mundo

 

Os chimpanzés foram abandonados com poucas chances de se alimentarem sozinhos. Foto: Jenny Desmond/Divulgação

Os chimpanzés foram abandonados com poucas chances de se alimentarem sozinhos.
Foto: Jenny Desmond/Divulgação

 

Ex-funcionários do NYBC cuidam dos animais. Foto: Jenny Desmond/Divulgação

Ex-funcionários do NYBC cuidam dos animais.
Foto: Jenny Desmond/Divulgação

 

Em 1974, o banco de sangue americano New York Blood Centre (NYBC) decidiu criar na Libéria, oeste africano, o Vilab II – um grande laboratório a céu aberto para experimentos com diversos tipos de vírus em chimpanzés silvestres. Os primatas foram infectados deliberadamente com doenças como a hepatite, para que vacinas fossem desenvolvidas.

Trinta e um anos mais tarde, quando anunciou o fim dos experimentos, o diretor do Viral II, Alfred Prince, assegurou que o NYBC iria cuidar do bem-estar dos primatas pelo resto de suas vidas.

Pelo fato de estarem infectados, os chimpanzés foram levados para seis ilhas fluviais. Lá, ao custo de US$ 20 mil mensais, os animais recebiam água e comida e cuidados para uma “aposentadoria feliz”.

Porém, em março de 2015, o NYBC cancelou toda a ajuda, deixando 85 chimpanzés abandonados à própria sorte. Era impossível que escapassem, pois esses primatas não são bons nadadores.

Tecnicalidade

Tecnicamente, o governo da Libéria é o dono dos animais, mas os cuidados diários e experiências eram de responsabilidade do NYBC. Esse detalhe legal permitiu que o banco de sangue se distanciasse do problema.

Em um comunidado divulgado poucos meses após o fechamento do laboratório, o NYBC disse que “nunca teve obrigação alguma de cuidar dos animais”. O comunicado dizia ainda que “já não era sustentável desviar milhões de dólares de nossa missão de salvar vidas”.

Este posicionamento provocou fúria de ativistas dos direitos animais.

“O banco de sangue abandonou os chimpanzés na Libéria no pior momento possível, quando o país estava em meio ao surto do vírus ebola”, criticou, por meio de uma porta-voz, a ONG americana The Humane Society.

“Vale a pena mencionar que foi a utilização de chimpanzés que possibilitou ao centro desenvolver vacinas e outros tratamentos ao longo de décadas”.

Resgate

Mas esta não é uma discussão sobre questões éticas ligadas ao uso de animais para testes médicos. Ninguém poderia argumentar que esses animais não merecem água ou comida.

Como primatologista, estou interessado em como se pode cuidar de um grupo de animais de laboratório, criado em um ambiente semissilvestre e portador de doenças que oferecem riscos tanto para outros animais como para seres humanos.

Para resolver esse dilema, a especialista em grandes primatas Jenny Desmond e seu marido, o veterinário Jim Desmond, viajaram no final de 2015 ao país africano, financiados pela The Humane Society, para coordernar a assistência aos chimpanzés.

Eles lideraram um pequeno grupo de pessoas que agora se ocupa dos primatas.

Recentemente, falei com os Desmond e eles me contaram que a população de chimpanzés está crescendo – 11 novos teriam nascido desde 2006 por causa da falta de controle de natalidade.

Jenny disse estimar que 30 dos adultos levados para a ilha em 2005 tinham morrido. Um grande problema é que não é possível reintroduzir esses animais à vida silvestre, pois eles poderiam infectar outros bichos.

“Não sabemos qual chimpanzé está inoculado com qual doença”, diz ela.

Controle

Chimpanzés têm vida média de 60 anos, e por isso é importante oferecer o melhor cuidado a esses animais. A população atual das ilhas é de 63, distribuídos em grupos de nove e 13 animais. Felizmente, muitos ex-empregados da NYBC, que durante décadas trabalharam com esses animais, ainda vivem em localidades próximas.

Porém, a falta de infraestrutura tanto nas ilhas quanto em terra firme tornaram quase impossível fazer tratamentos e monitorar os animais.

Os animais andam livremente pelas ilhas e não há estruturas para separá-los e fazer exames rotineiros.

Mas Jim Desmond mantém o otimismo.

“Nossos dois principais objetivos quando chegamos aqui eram melhorar a dieta dos chimpanzés e implementar um controle de natalidade”, escreveu ele recentemente no blog da Humane Society.

Segundos os especialistas, a saúde dos chimpanzés melhorou consideravelmente e os animais estão sendo medicados diariamente com pastilhas de progesterona para que não se reproduzam.

Responsabilidade

A renomada defensora dos animais Jane Goodall diz que o NYBC deveria ser responsável por cuidar desses animais para o resto de suas vidas. “Eles sabiam muito bem que os chimpanzés têm vidas longas. Abandoná-los é imperdoável”, diz ela.

Procurada pela BBC, o NYBC não se pronunciou.

O cuidado com animais em cativeiro é frequentemente muito complexo. Mas quando eles são utilizados para experimentos, há uma obrigação implícita de receberem assistência mesmo quando já não têm um valor científico.

 

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