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Correio Braziliense Contrabando silvestre

on maio 7 | em FIQUE POR DENTRO, Renctas na Mídia | by | with No Comments

Cristina Ávila
Da equipe do Correio

O crime no Brasil movimenta US$ 1 bilhão por ano. País, que tem 1.677 espécies de aves conhecidas, é responsável por 7% do comércio irregular no mundo.

O mercado de animais silvestres funciona como um antiquário. Quanto mais raro, mais alto o preço do bicho. É um negócio subterrâneo que engorda as exportações brasileiras em quase US$ 1 bilhão.

Estima-se que quatro milhões de animais sejam contrabandeados para o exterior a cada ano. Outros oito milhões são vendidos no próprio Brasil. Com 1677 espécie de aves silvestres conhecidas, por exemplo, o país é um maná para os contrabandistas.

Colecionadores estrangeiros chegam a pagar US$ 60 mil por uma arara-azul-de-lear. É a vedete do tráfico internacional de animais: no mundo, só existem 180 voando soltas na natureza, em um único lugar no planeta, na caatinga do interior baiano.

Mas tudo é negociável. Ontem a Polícia Federal prendeu três pessoas em Brasília, que invadiram a Reserva Ecológica de Águas Emendadas, em busca de aves raras para serem contrabandeadas.

Na semana passada, a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) coordenou em São Paulo uma reunião técnica para discutir estratégias contra o comércio ilegal.

A organização não-governamental é parceira do Instituto de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Polícia Internacional (Interpol) e nos próximos dias vai deflagrar uma campanha nacional e internacional contra o tráfico.

O Brasil é responsável por 7% do comércio irregular de animais no mundo. ‘‘O cálculo tem como base denúncias policiais, levantamento de informações obtidas em pontos de venda e nas rotas do tráfico e nas apreensões do Ibama e Polícia Federal’’, explica o coordenador da ONG Renctas, o biólogo Dener Giovanini.

As apreensões, no entanto, são insignificantes numericamente. O coordenador de Fiscalização de Fauna do Ibama, José Carlos Lopes, diz que no ano passado foram apreendidos no país 46.484 animais silvestres vivos (com exceção de peixes) e 20.832 abatidos (carne de caça). É pouco.

O delegado da Interpol (uma espécie de PF com atuação mundial), Jorge Pontes, trata o assunto como coisa séria. ‘‘O tráfico de animais silvestres é o terceiro negócio ilícito do mundo, depois do comércio de drogas e armas’’, afirma.

‘‘Os animais saem escamoteados ou lavados — isso mesmo, como lavagem de dinheiro! — em criadouros que se fazem passar por legais. Jorge Pontes diz que esses criadouros estão dentro e fora do Brasil. Em países como a Argentina, Suriname, Colômbia ou Bolívia. Os contrabandistas passam as fronteiras brasileiras, aproveitam brechas nas legislações de países vizinhos e conseguem esquentar documentos. Ou seja, armam falcatruas para legalizar os bichos, como se fossem nascidos em cativeiros regularizados. Isso é o que ele chama de lavagem dos animais. A partir daí, seguem como exportação.

‘‘O tráfico é tão preocupante que será criada uma divisão especializada na repressão a crimes ambientais, prevista pelo Plano de Segurança do governo federal’’, acrescenta Pontes. O plano, anunciado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em junho, incluiu a proteção ambiental e fiscalização de contrabando em fronteiras.

Mas até agora, também são insignificantes os números de inquéritos da Polícia Federal Fazendária, responsável pelo tráfico dentro do país. O crime contra a fauna provocou 50 inquéritos em 1998. No ano passado foram 82. E neste ano as estatísticas concluídas até a segunda quinzena de junho era de 38 inquéritos policiais.

Segundo Ivan Rosa, delegado-chefe da Polícia Federal Fazendária, grande parte dos animais traficados são transportados em ônibus e caminhões de grandes empresas, cujos proprietários geralmente não sabem nada sobre o crime dos motoristas.

E esse será um dos principais alvos da campanha deflagrada pela Renctas. A ONG, que tem 380 organizações filiadas, abrangendo 13 mil membros, vai centrar esforços para esclarecimento de caminhoneiros e motoristas de ônibus. ‘‘Quem carregar animais silvestres poderá ter o caminhão apreendido. E vai responder processo’’, afirma Dener Giovanini.

Na campanha — que tem a participação de ONGs, órgãos de governo, policiais, etc — serão distribuídas grátis 7 mil fitas de vídeo educativas, sendo 5 mil em português e 2 mil em inglês. E 50 mil cartazes em espanhol e outros 50 mil em inglês. O material vai chegar desde escolas no país a embaixadas estrangeiras no Brasil e no exterior. A mensagem será para conscientizar as pessoas sobre o prejuízo ecológico de comprar animais silvestres e sobre as leis ambientais. Pois além de empobrecer a natureza, os traficantes são cruéis. Eles quebram ossos do peito de araras para que, contidas pela dor, pareçam dóceis aos compradores que passam pelas estradas; controlam macaquinhos embebedando-os com cachaça.

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