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Biólogos e agricultores lutam para a preservação do papagaio-charão

on June 19 | in Fauna na Mídia, FIQUE POR DENTRO | by | with 1 Comment

Araucária tem contribuição valiosa para a sobrevivência da espécie.
Árvore produz o pinhão, que serve de alimento para o papagaio-charão.

19/06/2016 – 08h35
G1 – Programa Globo Rural
Ricardo Von Dorff – Muitos Capões, RS

 

Foto: Reprodução/Globo Rural

Foto: Reprodução/Globo Rural

 

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Muitos agricultores do Sul do país sabem da importância da araucária, árvore de rara beleza e que dá o pinhão, uma semente saborosa. Além disso, ela é decisiva para a preservação de uma espécie de papagaio ameaçada de extinção. Esse esforço conta ainda com a dedicação de um casal de biólogos.

Quando o dia vai chegando ao fim na serra catarinense, é hora do show. As aves proporcionam uma das mais belas exibições da vida silvestre no Brasil. A visão da revoada do papagaio-charão mexeu com os biólogos Jaime Gonzales e Nêmora Prestes. Para o casal foi paixão à primeira vista e em alto e bom som.

“Esta emoção começou há 25 anos, quando nós vimos bandos de 200 a 300 papagaios. Essa emoção aumenta muito vendo hoje milhares de papagaios voando pelo céu do Brasil. É muito bacana”, diz Gonzales.

Antes de contar essa história de muita dedicação, será apresento o amazona petrei, nome científico do papagaio-charão.

No passado, o bicho vivia no Rio Grande do Sul e em algumas partes da Argentina e do Paraguai. Mas seu habitat foi tão destruído que agora ele só é encontrado em alguns locais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Hoje, a ave está na lista das espécies ameaçadas de extinção.

A marca registrada do charão é a máscara vermelha na testa, em volta dos olhos e na parte de cima das asas. É o menor de todos entre as 12 espécies de papagaios do Brasil. Tem o tamanho de uma régua escolar, com cerca de 30 centímetros, e pesa só 300 gramas. Mas a criatura faz muito barulho.

O bicho também é resistente. É o que voa as maiores distâncias atrás de comida. O cardápio variado tem cerca de 80 tipos de frutas, sementes e flores de plantas nativas do Rio Grande do Sul. Mas a o alimento preferido deste papagaio é o pinhão.

Uma curiosidade sobre o charão: ele é um bicho fiel. O casal fica junto para vida toda. E, pelo que se sabe, a ave pode passar dos 40 anos.

Também é da natureza do charão se reunir em grandes bandos que enfeitam o céu. Antes, o espetáculo era em outro lugar, longe da serra catarinense. Por isso, a equipe de reportagem viajou cerca de 200 quilômetros de Urupema até o Rio Grande do Sul para conhecer a Estação Ecológica Aracuri-Esmeralda.

As grandes revoadas chamaram a atenção de pesquisadores ainda na década de 70. Elas aconteciam no município de Muitos Capões, nos campos de cima da serra, no nordeste do Rio Grande do Sul. Eles ficaram tão encantados que passaram a pressionar o poder público.

Então, em 1981 foi criada uma das primeiras estações ecológicas do Brasil. São 272 hectares para proteger o papagaio-charão.

Dez anos depois, os biólogos Jaime Gonzales e Nêmora Prestes, então dois jovens professores de biologia da universidade gaúcha de Passo Fundo, foram conhecer o lugar e levaram um susto.

“Quando chegamos foi nossa surpresa porque a gente esperava encontrar bandos imensos e só registramos oito indivíduos. Então, foi um compromisso bastante forte da nossa parte de iniciar um trabalho de conservação para a espécie”, diz Nêmora.

O sumiço do papagaio-charão tinha virado um mistério. Os bandos simplesmente desapareciam do Rio Grande do Sul por cinco meses, de março a julho, período em que deveriam estar se fartando de pinhão.

Cadê os bichos? Os biólogos, que se conhecem desde criança e dividem o mesmo amor pela natureza, puseram o carinho na estrada atrás de resposta. Assim, nasceu o Projeto Charão.

“Começamos uma busca por todo o Rio Grande do Sul, aonde o papagaio-charão estaria neste período de março a julho. Encerradas as investigações no Rio Grande do Sul, nós começamos a procurar entre os pinheirais de Santa Catarina”, diz Gonzales.

Foram quatro anos de expedições, até que um dia “de repente a Nêmora encontra um bando de 17 papagaios-charões durante o mês de abril, maio e foi seguindo estes 17 papagaios que nós acabamos localizando um grupo de 8,5 mil papagaios”, explica Gonzales.

Uma imagem de satélite mostra que ao redor da Estação Biológica dos Charões, no Rio Grande do Sul, o que sumiu foram as florestas com araucárias. “Os papagaios são espertos. Não tinha lá a alimentação preferida deles, vieram encontrar na serra catarinense”, diz Nêmora.

Agora, a nova área de alimentação dos charões fica entre os municípios de Painel, Urupema e Bocaina do Sul, no planalto serrano catarinense, onde as matas com araucárias estão bem mais preservadas. É um banquete para o charão. O bicho passa o dia comendo. Enche a barriga de pinhão. A semente da araucária é o seguro de vida da espécie.

“Depois de meses comendo pinhão, o papagaio charão consegue estocar energia o suficiente, na forma de gordura, para retornar ao Rio Grande do Sul e começar o período reprodutivo. Esta floresta com araucárias do planalto de Santa Catarina é fundamental para a sobrevivência do papagaio charão”, alerta Gonzales.

Por isso, virou compromisso do Projeto Charão preservar as árvores majestosas e muito antigas. Ela também é chamada de pinheiro brasileiro e é mais comum na região Sul do país, onde o pinhão, a semente da árvore, é usado em muitas receitas. Mas, foi por causa do alto valor da madeira que a araucária acabou explorada, sem trégua, durante dois séculos. Hoje, a araucária está em perigo crítico de extinção e o corte é proibido por lei.

Mais do que nunca, as araucárias e os bichos que dependem da árvore precisam de amigos. Os pinhões que os papagaios vão comer em Santa Catarina não estão em parques nacionais ou em outras unidades de conservação. As araucárias, na verdade, ficam em propriedades particulares como a do agricultor Dercílio Arruda. Por isso, é fundamental contar com a colaboração deles para que a mata de araucária continue de pé.

O agricultor Dercílio Arruda produz leite, feijão e hortaliças no município de Painel. Mas quase toda a propriedade, de 600 hectares, está coberta de araucárias. Ele está com 67 anos e desde menino sobe nas árvores de pés descalços. O produtor usa a vara como se fosse um taco de sinuca para derrubar as pinhas.

O pinhão garante uma renda extra para centenas produtores rurais da região. Esses são os casos dos agricultores Avelino Vitorino e do Rodnei dos Santos, que também são de Painel. Depois de colher o pinhão na terra deles, foram para a propriedade de um vizinho. Eles estavam ajudando a separar os pinhões que são bons das falhas, como eles chamam as sementes que não se desenvolveram.

A lógica é simples: com as araucárias em pé, tem pinhão para todo mundo. Sabe aquela história de que as pessoas só cuidam daquilo que aprendem a gostar? Por isso, o Projeto Charão aposta nas crianças e vai de escola em escola no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

“O que nos preocupa muito é a predação pelo homem, que captura os filhotes para um comércio ilegal. Mas isso nós temos conseguido diminuir bastante através de programas de educação”, diz Gonzales.

A garotada também põe as mãos na terra e planta o futuro. O pessoal do projeto também mostra com orgulho uma área muito especial, de 43 hectares, em Urupema. “Foi possível comprar esta área graças ao apoio de duas instituições internacionais que trabalham com a conservação em todo o mundo. Estaremos preservando ambientes de alimentação”, diz Nêmora.

O nome da reserva é Papagaios de Altitude. É que, além do charão, o papagaio do peito roxo, outra espécie da região, precisa de proteção. O pessoal do projeto acabou de fazer o censo do bicho, de contar quantas aves existem. Eles só acharam 3.829 mil papagaios do peito roxo.

Assim como o charão, o peito roxo também está na lista vermelha das espécies ameaçadas. Para evitar que este risco aumente, os biólogos criaram um centro de reprodução na universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. O foco agora é dominar a técnica de reprodução do peito roxo em cativeiro. A técnica do charão já é bem conhecida.

Na natureza, a reprodução papagaio-charão só acontece no Rio Grande do Sul, como descobriram os pesquisadores do projeto. A ave usa buracos nos troncos das árvores para fazer o ninho. Uma vez por ano, a fêmea põe de dois a três ovinhos. Os filhotes nascem depois de 29 dias. Os pais alimentam os pequenos com papinhas de frutas como a gabiroba. A mordomia acaba cedo.

Quando o charão migra para Santa Catarina, os pesquisadores do projeto vão atrás da ave. Poucas pessoas têm o privilégio de ver de perto o espetáculo que os papagaios produzem na natureza. O encontro de milhares de aves, que acontece sempre no fim do dia, na serra catarinense, é a chance que os pesquisadores têm de fazer o censo da espécie, de fazer a contagem da população.

Não existe uma técnica específica para a contagem. Nessa hora, vale mesmo a experiência de mais de duas décadas dos biólogos contando os bandos de charões. Ao todo, são 19.168 papagaios-charão. O que quer dizer que nos últimos 20 anos a população mais do que dobrou.

A safra de pinhão este ano em Santa Catarina foi menor. Por isso, o papagaio-charão, que geralmente fica na serra catarinense até julho, já voltou para o Rio Grande do Sul. Graças a iniciativas como essa que o charão irá continuar a dar um belo espetáculo nos céus do Brasil.

 

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One Response to Biólogos e agricultores lutam para a preservação do papagaio-charão

  1. José Carlos Dall Igna says:

    Bom dia a todos.
    Muito bonito o trabalho de preservação do Papagaio-Charão.
    Tenho um Sítio aqui em Curitibanos Região Serrana de Santa Catarina. Este ano aumentou os bandos da ave. É realmente emocionante no final da tarde apreciar os bandos voando. Graças a Deus está proibido o corte das Araucárias, existem pinhões, e o alimento está garantido. Parabéns a todos aqueles que se dedicam à preservação da nossa natureza.

    Curitibanos/SC.
    31/07/2016.
    José Carlos.

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