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“COMUNICAÇÃO ECO-CIDADÃ: FORMA E CONTEÚDO” – Maria das Dores Correia Palha

on January 30 | in Artigos, FIQUE POR DENTRO | by | with No Comments

Prólogo

Após insistentes pedidos da Cecília, guerreira e “arauta” da RENCTAS, e faunisticamente falando, verdadeiro espécime de capitão-da-mata (ave conhecida na Amazônia por primeiramente anunciar a presença de um intruso na mata), para que escrevesse um artigo de opinião para o sítio eletrônico da Rede. Confesso que levei um tempo para organizar idéias e transcrevê-las para o papel. Há tanto o que escrever daqui dessas bandas para alardear ao mundo de leitores eletrônicos… Seria a mesma coisa de um texto veiculado por meios convencionais? Logo me pus a pensar, quem são estes leitores, qual seu perfil, que tema ou estilo de redação os interessa, e tantas outras indagações. No entanto, me veio à lembrança a opinião de uma colega professora ao participarmos da banca examinadora de um concurso para professor. Disse ela: – “Achei que fulana foi melhor por que ela falou pouco”. Contra-argumentamos, meio estupefatos, que a candidata havia utilizado tempo abaixo do mínimo exigido, sendo portanto, passível de eliminação. Ela insistiu: – “Por isso mesmo! Ela deu o recado e não cansou. A gente fala demais!” Voltando ao nosso dia-a-dia em sala de aula, temos presenciado toda uma desconstrução da capacidade de leitura e de tolerância para assistências às aulas dissertativas, o que nos faz pensar sobre a necessidade de inventar novas formas de comunicação que atendam à equação: econômica, massal e menos “sacal”. Assim, assumimos a premissa de que é mais forte a correlação entre a leitura integral do texto e o tamanho do mesmo que a correlação entre a leitura integral do texto e a qualidade do mesmo. Com isso, entendemos que os artigos devam ser breves. Num delírio otimista, hipotetizei-os como verdadeiros “torpedos” da moderna comunicação eco-cidadã. Até que sejamos contestados por algum leitor excêntrico a estes novos padrões dos textos da era virtual, é assim que pensamos fazer nossas inserções. Quanto ao conteúdo, nossa melhor contribuição certamente consiste em fornecer elementos para reflexão quanto aos desafios da proteção da fauna e conservação da biodiversidade, sob a ótica amazônica. Fecho este prólogo orgulhosa pelo privilégio de escrever para uma organização como a RENCTAS, que tem feito um trabalho de uma dimensão impressionante, qualitativa e quantitativa, para o bem-estar e a proteção da fauna selvagem, como elemento para a conservação do meio ambiente.

Parte1 – “Da biotecnologia à biologia: o caminho inverso na Amazônia”

Há pouco mais de uma década, cheguei à Amazônia, mais especificamente em Belém, para residir. Não havia tido oportunidade de um contato prévio que me preparasse para essa imensidão de contrastes e particularidades, especialmente da natureza. Vinha com a esperança de uma vida renovada, pessoal e profissional, e com a memória impregnada desde a infância pela Amazônia mística dos ensinamentos da escola e dos livros. Confesso que fiquei impressionada com a região: a fartura de espécies animais e vegetais, o clima, o povo, os cheiros, os hábitos, tudo enfim. Entendi por que dizem que a “Amazônia é a terra onde tudo é grande”. Basta conhecer as frutas, como taperebá (nosso cajá nordestino), araçá, graviola, banana, ingá e abacate, só para citar algumas; os peixes, pois somente aqui “filhote” é um peixe enorme; as árvores, os rios, e até os pingos de chuva, enormemente grandes.

Como nordestina, o que mais me chamou atenção foram as suas águas. Águas abundantes, a começar pela baía de Guajará. Vindas da superfície, por todos os lados, rios, igarapés, lagos, baixadas, além de poças e poças aqui, ali e acolá. Rios ultrajantes, que fazem com que o Capibaribe e o Beberibe que irrigam a terra e a vida dos conterrâneos, em Recife, não passem na verdade de meros igarapés. Vindas de cima, torrencialmente, por chuvas diárias, acompanhadas quase sempre de relâmpagos e trovões com os quais ninguém se acostuma, imaginem um nordestino! Vindas de baixo, subterraneamente, abastecendo boa parte da cidade, chegando ao impressionante luxo de piscinas com águas minerais correntes. Águas abundantes e abundantemente desperdiçadas.

Por deveres do ofício, me vi diante de uma escola de Ciências Agrárias. A antiga FCAP (Faculdade de Ciências Agrárias do Pará, hoje Universidade Federal Rural da Amazônia), naquela época com seus quase quarenta anos de fundação, sendo a mais antiga instituição federal de ensino superior da Amazônia. A FCAP tinha três cursos de graduação: Agronomia, Engenharia Florestal e Medicina Veterinária e havia formado mais de 3.000 profissionais, espalhados pelos mais remotos pontos da região. Embora com a dimensão sutil de uma neófita, já naquela época me dei conta da importância dessa instituição para a região.

Como Médica Veterinária e com uma trajetória prévia em pesquisa, me instigou a seguinte reflexão – Qual caminho buscar em termos de pesquisa e extensão numa Universidade amazônica? Delinearam-se três desafios: caprino-ovinos, bubalinos e fauna selvagem. Discussão para cá, reflexão para lá, seminários e etc e tal, descartou-se o primeiro pela pouca tradição e pela condição tropical úmida local; descartou-se o segundo, pelo fato dos grupos de pesquisas estarem desvinculados ou se desvinculando da FCAP, finalmente optou-se pela fauna selvagem. Vale considerar que mesmo com a antiguidade e pioneirismo do ensino superior na região, não havia na instituição nenhum programa estabelecido em fauna selvagem.

Logo em seguida, nova constatação: após mais de uma década de formação, teria que reaprender a ser veterinária, ou melhor aprender uma veterinária para Amazônia. Havia sido formada na escassez de água e de recursos naturais para a produção animal, e convivido ao longo de minha vida com ecossistemas semi-áridos ou da costa litorânea marítima. Antes era domar a escassez, e agora domar o excesso de água e suas implicações.

Na minha formação “Veterinótica”, com licença da palavra ao Prof. Milton Thiago de Mello, nada mais óbvio que casar a experiência em biotecnologia reprodutiva obtida nos estudos de pós-graduação com as possibilidades do meu novo local. Assim, vislumbrei toda a fauna da Amazônia em um botijão de nitrogênio líquido. Daí chegou-se à formulação de um projeto de pesquisa em criobiologia aplicada à conservação de vertebrados silvestres. Em pouco tempo a iniciativa foi abandonada pela distância entre a proposta, o “estado da arte” sobre a biologia das espécies e as condições locais.

Considero este como um momento crucial em termos da reflexão e da mudança de rota profissional. A partir dele, passamos a priorizar estudos biológicos gerais e reprodutivos e de etnozoologia com ênfase no uso tradicional da fauna; além de bem-estar, proteção da fauna e conservação da fauna, surgindo 1994, o Projeto Bio-Fauna (hoje Bio-Fauna da Amazônia, por argumentarem propriedade da marca). Vale um questionamento, será que este exercício reflexivo, imperioso ao se atuar numa região ímpar como a nossa, é comum entre nossos profissionais?

Nessa nova rota, a ecologia social e a capacitação de pessoal passaram a fazer parte de nossa preocupação e de nossa vivência, visando a conservação e o aproveitamento dos recursos em bases sustentáveis. Passamos a integrar o Projeto Várzea, do Departamento Socioeconômico da antiga FCAP, o que nos permitiu aliar a temática da fauna com várias outras interfaces abrangidas pelo Projeto. Mais ainda, permitiu que nos lançássemos aos mais diversos pontos da Amazônia, não só convivendo com as pequenas comunidades ribeirinhas, mas permitindo aos nossos estudantes e bolsistas uma vivência ímpar traduzida na riqueza deste convívio. Eles podiam literalmente se sentir na interface entre os que representavam a ciência tradicional, sistematizada e cartesiana e a nata do conhecimento popular. O depoimento destes estudantes é impressionante. Algo como: – “A experiência nos marcou para o resto de nossas vidas”.

Essas vivências nos permitiram um mergulho na Amazônia, nas comunidades ribeirinhas mais longínquas. Convivendo dias e dias com sua realidade, com sua rotina, com sua amazoneidade. Naqueles idos, há mais de uma década, na interatividade de ambos os projetos de pesquisa, a hoje tão badalada transdisciplinaridade era realizada mais intuitiva que teoricamente. E lá íamos nós, ávidos pelo estudo da fauna e dos demais recursos e suas interfaces com a várzea, nos deliciando com a sabedoria dos caçadores, dos pajés, dos pais-de-santo, dos diversos líderes religiosos, das crianças, das parteiras, rezadeiras e donas-de-casa. Nos humanizando e nos transdisciplinando a cada viagem. Cada vez que mergulhávamos nesse universo, mais a reprodução artificial se perdia de vista em nosso horizonte de pesquisa. Em pouco tempo, anos luz estavam nos separando daquela idéia, não por demérito aos conhecimentos da ciência ou por qualquer análise crítica ao tecnicismo da biotecnologia reprodutiva, mas pela simples constatação de que não se justificava qualquer intervenção artificialóide, sem que melhor dominássemos o conhecimento sobre nossa fauna selvagem nos aspectos naturais da biologia das espécies e no contexto de sua relação com o homem da Amazônia. Como inovar nas biotécnicas reprodutivas animais sem inovar nas condições de vida humana na região? Não encontramos caminho melhor que a potencialização de estudos das interfaces animal – ecossistema – homem – produção – diversidade, favorecendo a geração de proposições plurais para a pesquisa, a assistência técnica e o desenvolvimento local.

Nesses mais de dez anos de trabalho, ambos os projetos concebidos e sediados na Amazônia e para a Amazônia, certamente contribuíram para a formação de profissionais melhor conhecedores da realidade desse bioma, numa visão ecossistêmica, envolvendo os ribeirinhos, sua socioeconomia, os recursos naturais em geral e a fauna e flora em particular. Os estudantes que acompanham estas experiências são impregnados por uma “imersão regional”, o que lhes assegura destacada base humanista e exercício transdisciplinar. Essa preocupação sempre acompanhou os mentores e os integrantes destes projetos, havendo uma constante reflexão sobre nosso papel como membros de uma instituição pública de ensino superior formadora de mão-de-obra em especialidades agrárias, com seus produtos (material humano qualificado) amplamente disseminados por toda a região. Isto aos olhos do mais simples ambientalista significa gente da Amazônia trabalhando na Amazônia e para a Amazônia com requisitos e possibilidades para intervenção nos sistemas de produção e de uso da terra e o engajamento em programas de conservação.

*Maria das Dores Correia Palha
Conselheira Técnica da Renctas
Projeto Bio-Fauna
Instituto Socioambiental e de Recursos Hídricos – ISARH
Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA

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