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Coronavírus faz governo chinês rever legislação sobre mercados com animais vivos

on March 5 | in Fauna na Mídia | by | with No Comments

Mercado em Langfang, ao Sul de Pequim, na véspera da restrição à venda de animais Foto: Giulia Marchi / The New York Times

Mercado em Langfang, ao Sul de Pequim, na véspera da restrição à venda de animais Foto: Giulia Marchi / The New York Times

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Papel de feira livre de Wuhan no surgimento da epidemia faz governo rever legislação

LANGFANG, CHINA — Os mercados típicos da China têm frutas e vegetais, cortes de carne bovina, suína e ovina, frangos depenados (com cabeças e bicos à mostra), além de caranguejos e peixes vivos, espirrando água para fora de tanques agitados. Alguns deles vendem mais que o básico, incluindo cobras vivas, tartarugas, cigarras, porquinhos-da-índia, ratos-de-bambu, texugos, ouriços, lontras, civetas e até filhotes de lobo.

Os mercados são sensação em diversas cidades chinesas e, agora, pela segunda vez em duas décadas, são a fonte de uma epidemia que espalhou medo, abalou a burocracia do Partido Comunista e expôs os riscos epidemiológicos que podem proliferar em lugares que reúnem gente e bichos.

O novo coronavírus, que já matou mais de 130 pessoas e deixou outras 6.000 adoecidas na China e em outros países, provavelmente começou a se espalhar exatamente a partir de um desses locais: um mercado de atacado de Wuhan, cidade no centro da China onde comerciantes vendiam animais vivos legalmente em barracas espremidas às centenas umas contra as outras.

“É assim que surgem novas doenças emergentes que a população humana nunca viu”, diz Kevin J. Olival, biólogo e vice-presidente da EcoHealth Alliance, uma ONG de pesquisa que já rastreou outras epidemias.

Apesar de a trajetória exata do patógeno ainda não ter sido determinada, autoridades de governo e cientistas afirmam que o novo contágio teve similaridades macabras com a epidemia da SARS (síndrome respiratória aguda severa) no fim de 2002, que matou quase 800 pessoas e deixou milhares doentes no mundo.

Agora, enquanto o governo luta para conter a insatisfação popular com outro surto, cresce a pressão para que a venda de animais silvestres seja mais regulamentada ou banida. E cresce o questionamento sobre por que quase nada mudou em 17 anos, desde o fim da SARS.

Naquela ocasião, a doença foi rastreada a partir de um coronavírus que saltou de morcegos para civetas (criaturas parecidas com gatos e consideradas uma iguaria no sul da China), e então para humanos envolvidos em comércio de animais silvestres. Segundo autoridades e cientistas, o novo vírus também parece ter se originado em morcegos e passado por um animal intermediário ainda desconhecido antes de chegar a humanos.

Ostentação e superstição

O último surto, que ainda está crescendo, levou a pressões internas e externas sobre a China para regulamentar ou até mesmo proibir as aventuras gastronômicas promovidas ali. Embora carne de tartaruga e javali não sejam comuns em restaurantes chineses, carnes de caça como civeta, cobra e pangolins tendem a ser consideradas especialidades em alguns lugares. O consumo delas é estimulado tanto por um desejo de ostentação de riqueza quanto por um misto de superstição e crença em benefícios de animais silvestres à saúde.

Assim que a Feira Livre de Frutos do Mar de Huanan, em Wuhan, foi identificada como provável fonte do surto em dezembro, as autoridades a fecharam, apesar de não ter sido esclarecido o que aconteceu com os animais que estavam à venda ali. Autoridades anunciaram só em 23 de janeiro que tinham banido a venda de animais silvestres em toda a província. Duas outras províncias, Henan e Mongólia Interior, também impuseram uma suspensão no comércio uma semana antes.

Na sexta-feira, autoridades de três agências nacionais anunciaram controles mais rígidos, incluindo a suspensão nacional do transporte e venda de animais possivelmente ligados ao novo coronavírus. O anúncio especificou apenas texugos e ratos-de-bambu, um roedor que vive em bambuzais e se alimenta deles no sul da China. Ambos tinham venda anunciada no mercado de Wuhan.

O fluxo de ações do governo ocorreu depois de um grande volume de críticas do público contra o comércio de animais vivos. Uma campanha na plataforma de rede social Weibo atraiu 45 milhões de visualizações com a hashtag #rejectgamemeat (recuse carne de caça).

“Comer caça não cura a impotência nem confere poderes de cura”, afirmou Jin Sichen, apresentador de TV de Nanjing, cidade no sudeste chinês, em sua página do Weibo. “A caça não apenas não cura doenças, mas pode deixar você, sua família, seus amigos e ainda mais pessoas doentes. Comer caça por ostentação e exibição é coisa de quem tem problemas mentais”

Um grupo de 19 intelectuais chineses também pediu ao governo que faça mais para regulamentar o comércio e pediu ao público para parar de comer animais silvestres.

A Wildlife Conservation Society, uma ONG sediada em Nova York, pediu a proibição global do comércio de animais silvestres, especialmente em mercados como os da China, que se revelaram como ameaça à saúde pública após o último surto.

Christian Walzer, diretor executivo de saúde da organização, disse que a surpreendente diversidade de animais silvestres em mercados como esses, confinados em pequenas gaiolas em bancas de feira lotadas, criou um laboratório perfeito para a incubação acidental de novos vírus que podem entrar nas células humanas. Os vírus podem se espalhar através da saliva, sangue ou fezes.

“Cada animal é um pacote de patógenos”, disse.

Fonte de renda

Mas alguns consumidores chineses atribuem benefícios medicinais tradicionais aos animais. Vendedores e até funcionários da mídia estatal têm elogiado a vida selvagem como fontes alternativas de proteína e fontes de renda em regiões pobres.

Um artigo da agência de notícias Xinhua no outono passado, por exemplo, afirmou que a criação de ratos-de-bambu estava ajudando a tirar as pessoas da pobreza em Guangxi, outra província do sul.

As preocupações com o suprimento de carne aumentaram no ano passado, com o surto da febre suína africana, que levou à matança de 40% dos porcos do país. A produção de gado domesticado nas fazendas do país está, em comparação com a venda de animais selvagens, sujeita a muito mais regulamentação e inspeção. Os surtos ainda ocorrem, mas são identificados mais rapidamente.

Parte do problema com o comércio de animais silvestres é que há muito menos regulamentação, apesar do maior risco de animais vivos infectarem uns aos outros e contaminarem pessoas, especialmente em mercados que podem ser insalubres.

Walzer disse que um problema com a produção legal de algumas espécies é ela confundir o limite entre aqueles criados em cativeiro e aqueles capturados na natureza, onde vírus desconhecidos existem há anos sem contato com seres humanos.

“É um risco para a saúde pública, não apenas na China, mas em toda parte”, disse ele.

No auge do surto de SARS em 2003, as autoridades proibiram a venda de civetas e exterminaram os estoques existentes, mas em poucos meses a proibição acabou e o comércio foi retomado como antes.

“Isso é motivado por interesses”, disse Qin Xiaona, presidente da Capital Animal Welfare Association, uma ONG de Pequim, sobre o atual surto. “Muitas pessoas lucram com o comércio de animais selvagens hoje.”

Proibição tácita

O tráfico de alguns animais silvestres é proibido, incluindo pangolins, ameaçados de extinção, procurados por suas escamas e pela carne, mas a Administração Nacional de Florestas e Campos da China permite que as pessoas criem 54 espécies de animais, entre pássaros, répteis e insetos diferentes, incluindo ratos almiscarados, esquilos, emus e centopeias.

No Taobao, uma popular plataforma chinesa de compras on-line, encontra-se toda sorte de vida selvagem. Um texugo de bebê custa 1.300 renminbi (US$ 187). Um agricultor de Hunan, província ao sul de Hubei, vende civetas (a fonte da SARS) pelo equivalente a US$ 215 cada, com desconto de US$ 15 se comprar 500 ou mais.

No amplo mercado semi-coberto de Langfang, cidade polo de fabricação de eletrônicos ao sul de Pequim, um fornecedor anunciava um crocodilo vivo (US$ 550) e um porco-espinho (US$ 115).

Em Wuhan, as autoridades não detalharam quais eram todos os animais à venda no mercado relacionado ao novo coronavírus. Postagens em mídias sociais disseminaram uma fotografia de uma lista de preços para diversos animais oferecidos por um comerciante no mercado, mas sua autenticidade não pôde ser confirmada.

De acordo com um blog médico no WeChat, as autoridades de saúde de Wuhan visitaram o mercado em setembro e inspecionaram oito fornecedores que vendiam rãs, serpentes e ouriços, entre outros animais. Todos tinham licença para vender animais selvagens, e não foram encontradas irregularidades.

Apesar da disseminação do vírus em todo o país, o I-Cable News Channel, rede de TV de Hong Kong, a I-Cable, encontrou dezenas de animais silvestres ainda à venda no fim de janeiro em um mercado em Qingyuan, cidade em Guangdong, província onde a SARS emergiu.

A epidemia colocou vendedores na defensiva.

“Você tem certeza que foi o consumo de animais silvestres que causou a epidemia?”, disse Zheng Ming, gerente de vendas de uma empresa do setor em Yichang, uma cidade 320 km a oeste de Wuhan. Até a proibição de venda anunciada na semana retrasada, ele vendia porcos-espinhos, civetas, porquinhos-da-índia e ratos-de-bambu, entre outros.

“Seguimos a lei”, disse ele. “Esse é um negócio completamente legal.”

Fonte: https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus-faz-governo-chines-rever-legislacaosobre-mercados-com-animais-vivos-24219721

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