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O Dia – Entrevista especial – Dener Giovanini

on June 8 | in FIQUE POR DENTRO, Renctas na Mídia | by | with No Comments

Dener Giovanine, 36 anos, é coordenador nacional da RENCTAS – Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres

Gislandia Governo

Como o senhor começou nesta atividade?Para mim, atuar na defesa do meio ambiente tornou-se mais que um trabalho, é acima de tudo uma missão, algo que não temos como explicar, mas simplesmente fazer. Desde minha adolescência eu tive a sorte de estar muito próximo dos movimentos ambientais que emergiam no Brasil, como o Partido Verde, que ajudei a fundar. E uma vez “picado pela mosca verde” é impossível não se apaixonar pela causa. Mas não é uma tarefa fácil ou romântica como pensam muitas pessoas. Como em qualquer área, contrariar interesses provoca muitas decepções e, principalmente, muitos riscos. O trabalho desenvolvido pela equipe da RENCTAS contraria interesses de quem fatura ilegalmente 2 bilhões de dólares anuais com o tráfico de animais silvestres. Portanto, para seguir em frente, só estando muito apaixonado pelo que você faz, pois só a paixão nos impulsiona para certas loucuras que fazemos.Fale sobre o trabalho da Renctas?

O dia a dia na RENCTAS é o melhor remédio que eu conheço para a monotonia. Todos os dias são diferentes. Nós atuamos em todo o país e temos contato com os mais diversos tipos de pessoas. Numa hora estamos tentando conseguir uma vaga num avião de carreira para cinco filhotes de onças que foram apreendidos em Campo Grande – MS e que precisam ser levados para São Paulo e cinco minutos depois estamos recebendo uma comitiva de índios para discutir alternativas de renda que supram o comércio de penas de araras. Sempre sabemos o horário de entrada no escritório, mas é impossível adivinhar quando ele acaba. Meu recorde pessoal foi ter a experiência de num mesmo dia ter uma reunião com a Polícia Florestal em Belo Horizonte, almoçar em São Paulo com um grupo de pesquisadores de um de nossos projetos, no final da tarde estar em uma reunião no Rio de Janeiro com a equipe de um documentário que estamos produzindo e à noite, comandar em Brasília uma reunião do nosso conselho consultivo. Na RENCTAS o nosso trabalho nos exige muito, só não matamos um leão por dia, nem dois coelhos com uma cajadada só e tão pouco quebramos galhos.

Quando rende o tráfico no Brasil e no mundo?

O comércio ilegal da biodiversidade é uma atividade que não possui nenhum tipo de controle, portanto trabalha-se com base em projeções. Segundo estimativas da ONU e de vários pesquisadores, essa atividade movimenta no mundo cerca de 15 bilhões de dólares por ano, e o Brasil participa desse mercado ilegal com aproximadamente 15%.

O tráfico de animais é mais intenso no Brasil? Como funciona?

O nosso país, devido a sua imensa biodiversidade, tornou-se um dos principais alvos dos traficantes de animais. O que para nós brasileiros deveria ser um motivo de orgulho, tem a cada dia que passa se transformado num motivo de grande preocupação. E, infelizmente, isso só acontece por que nós desconhecemos essa riqueza que possuímos. O pior de tudo é que ainda vamos ter que lutar muito para colocar esse tema na pauta do dia dos nossos governantes, que tem se mostrados insensíveis a esse problema. Muitos políticos e muita gente no próprio governo pela mais absoluta ignorância desconhece a real dimensão do tráfico de animais e as conseqüências que o mesmo traz para o Brasil.
Os “ecoignorantes” têm uma visão muito cartesiana e até mesmo romântica sobre o meio ambiente. Eles acreditam que o meio ambiente está aí para nos servir, e quando se fala sobre isso, logo imaginam passarinhos voando num céu azul ou uma linda baleia esguichando água na imensidão do mar. Esse tipo de pensamento é comum naqueles que não conseguem enxergar a marginalização de comunidades carentes, a perda de divisas com as patentes internacionais sobre as nossas matérias primas ou até mesmo para solucionar problemas emergênciais, como o combate a fome. Veja um exemplo simples do que estou me referind uma ema, espécie comum em nosso país, e parente muito próxima da avestruz, coloca cerca de 60 ovos por ano. Um único ovo desse animal alimenta tranqüilamente uma família de 05 pessoas, além de ter baixo colesterol e ser muito rico em proteínas. Da casca do ovo se produz um artesanato belíssimo, que lembra o marfim, por sua cor e resistência, e das penas que caem naturalmente se produz espanadores e micro peças para limpeza de produtos de informática. Isso sem contar que a Ema faz um dos melhores controles naturais de pragas em lavouras, alimentando-se de larvas e gafanhotos. Mas sabe qual o que estamos fazendo com as nossas “impressionantes” Emas? Simplesmente caçando-as e colocando essa espécie mais próxima do risco de extinção. Esse é o Brasil.

Como é feito o transporte dos animais?

Da pior maneira possível. Para não chamar a atenção da fiscalização, os traficantes cegam aves, embriagam macacos com cachaça e até dão soníferos para espécies que fazem barulho. Nestas condições é muito difícil o animal resistir. Por essa razão, de cada 10 animais retirados da natureza, apenas 01 chega nas mãos do consumidor final, 09 morrem durante a apanha ou durante a captura. Mas os traficantes pouco se importam com isso, para eles a nossa fauna não passa de uma simples mercadoria, que é de graça e está disponível na natureza.

É fácil traficar animais no Brasil? Onde o tráfico é mais intenso?

Sim. As principais rotas do tráfico partem das regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste, com direção ao eixo Rio São Paulo. Estados como o Amazonas, o Pará e Mato Grosso do Sul são grandes fornecedores de animais. O grande comércio concentra nas grandes cidades, como o Rio de Janeiro e São Paulo. O Estado do Rio é a principal região de comércio ilegal do país, com incontáveis feiras livres que vendes animais silvestres a céu aberto, como se fossem bananas. Duque de Caxias, Honório Gurgel, Neves e São Gonçalo são apenas alguns exemplos de feiras que todo mundo sabe onde fica e que são grandes pontos de venda.

E das áreas vendedoras, os animais também saem diretamente para o exterior?

Sim, principalmente na região Sul do Brasil. Uma parte dos animais comercializados ilegalmente no país é enviada para os Estados do Paraná e do Rio Grande do sul, com o objetivo de serem levados para o exterior através da tríplice fronteira. Tem dia que a Ponte da Amizade, que divide a fronteira do Brasil com o Paraguai mais parece uma Arca de Noé.

Quais os maiores compradores de animais?

Além da própria sociedade brasileira, os maiores consumidos ilegais da nossa fauna são, entre outros, os EUA, Holanda, Alemanha, Espanha, Portugal, Itália, Suíça, China, Japão e vários paises do oriente médio. O que a Renctas apurou de mais grave? Situações graves é o que não falta em nosso cotidiano. Todos os dias, ao final do trabalho temos algo a lamentar. Mas ultimamente o que tem nos chamado a atenção e nos preocupado muito é o avanço tecnológico no comércio ilegal de animais. O uso da Internet para esse fim está se popularizando de uma forma assustadora. Uma rápida pesquisa na rede mundial de computadores é o suficiente para encontrar diversas espécies silvestres sendo oferecidas. O pior é que o Brasil não tem nenhuma regulamentação sobre isso. A Internet está ocupando o espaço da barraquinha na feira. Além do anonimato, os traficantes conseguem atingir um público muito maior com os seus anúncios virtuais. É um problema que precisa ser pensado urgentemente.

Quais espécies são as mais comercializadas e quanto custa cada uma?

Depende do tipo de tráfico, que varia de acordo com a finalidade que o animal vai ter. Para colecionadores particulares e pet shops espalhadas em todo o mundo, os nossos animais que despertam maior interesse são as aves, principalmente as que possuem bela plumagem, como as araras, tucanos e papagaios. Já para a pesquisa científica os mais procurados são os venenosos, como cobras, aranhas, escorpiões ou alguns tipos de inseto. Também temos animais procurados para abastecer o mercado do artesanato, medicina natural e moda. Os traficantes usam as formas mais cruéis para esconder os animais no contrabando.

E quanto à fiscalização, ela existe?

É necessário se reconhecer o esforço que alguns órgãos vem fazendo para coibir esse comércio ilegal no Brasil. Falo principalmente da atuação das polícias florestais, que mesmo sem estrutura, recursos humanos ou equipamentos, ainda conseguem produzir bons resultados. Mas a fiscalização só será ideal quando a mesma ter o respaldo de uma lei eficiente, que não condene a um traficante de animais silvestres somente a distribuição de algumas cestas básicas, como acontece hoje. A lei ambiental brasileira era para ser uma das melhores do mundo, mas transformaram a mesma numa piada, e pior, sem graça alguma. Eu pessoalmente já vi, por diversas vezes, traficantes estrangeiros ficarem debochando de policiais que o prendem. Um cidadão holandês preso em um aeroporto brasileiro, tentando deixar o país com uma mala cheia de animais, vai ter como penalidade, na maioria dos casos, a perda do vôo. Nada de maiores aborrecimentos. Numa situação mais desfavorável, ele pagará no máximo 300 reais de fiança e será liberado. Agora imagina o que esse cidadão pensa do nosso país. Pra quem sairia do Brasil com uma mala carregada com 300 sapinhos amazônicos, que seriam vendidos na Europa por 500 dólares cada, é um crime que vale a pena, alias, vale muito a pena.

Qual seria a alternativa eficaz para acabar com o tráfico?

A primeira coisa que precisar acontecer é o governo se mexer e implantar uma política pública concreta para enfrentar o problema. Não dá mais para ficar querendo tapar o sol com a peneira. Se o papel dos nossos governantes se resumir a publicar de tempos em tempos, novas listas de animais ameaçados de extinção, estaremos definitivamente condenados a viver num país burro e com um futuro comprometido. A sociedade também precisa fazer sua parte. Enquanto houver a demanda sempre haverá alguém disposto a fornecer os animais. Quem compra um animal silvestre ilegalmente está demonstrando seu descaso com as futuras gerações e contribuindo para acabar com a nossa biodiversidade. Um pássaro capturado ilegalmente na natureza não é só um pássaro. Ele representa a eliminação de toda uma geração de descendentes que aquele animal deixará de produzir.

O senhor acredita que a pobreza justifica o tráfico?

Definitivamente não. Nenhuma justificativa é forte o suficiente para se praticar uma ilegalidade. Se começarmos a pensar dessa maneira vamos enveredar por um caminho muito perigoso. Pobreza não é justificativa para nenhum crime. Até por que, no caso do tráfico de animais silvestres, as pessoas mais pobre, que são aquelas encarregadas dae capturar os animais, também são vítimas da exploração. Crianças pobres no sul do país deixam de freqüentar a escola para apanhar borboletas para quadrilhas de traficantes orientais. Elas recebem não mais que cinco centavos por exemplar, que será comercializado na China ou no Japão por até 1 mil dólares cada. No final das contas a família dessa criança continua pobre, e com um agravante, convivendo com a degradação ambiental e as conseqüências da mesma.

Quando um contrabandista recebe por cada animal capturado?

Depende de vários fatores. Quanto mais ameaçado de extinção for a espécie, maior será o valor que ela alcançará no mercado ilegal. A quantidade da encomenda também influencia no preço final, assim como a época do ano e o destino final onde o animal será entregue. Algumas espécies brasileiras chegam a custar cerca de 60 mil dólares o exemplar no mercado nacional. Um papagaio na lista de espécies ameaçadas tem seu valor acrescido em mais de 1.000% no exterior, em relação ao preço praticado no mercado nacional. È importante que a sociedade saiba que esse não é um negócio de coitadinhos que vendem passarinhos para sobreviver. Quem controla essa atividade no Brasil são quadrilhas especializadas, que na maioria dos casos estão conectadas com outras atividades ilegais como o tráfico de drogas, de armas e o contrabando de pedras preciosas. São pessoas que enriquecem vendendo o patrimônio nacional.

Como possuir um animal silvestre legalmente?

Para adquirir um animal silvestre legalmente o interessado deverá procurar um criadouro comercial ou loja autorizada pelo Ibama. Somente algumas espécies silvestres estão autorizadas a serem comercializadas. E todo o animal vendido de forma legal tem de ter nota fiscal que comprove a origem do mesmo, certificando que o ele nasceu em cativeiro e não foi retirado diretamente da natureza, além disso, tem de possuir um sistema de identificação, como anilhas e microchips, entre outros.

O que fazer quando encontrar alguém vendendo um animal silvestre?

Denunciar as autoridades mais próximas. Muitas pessoas acreditam que somente o Ibama ou a Polícia Florestal pode atuar nesses casos. Mas isso é um engano. Qualquer policial, seja ele civil, militar ou federal tem o dever de tomar as providencias necessárias. Devemos lembrar que a fauna silvestre é patrimônio da União e, portanto, é um bem público. Também não se deve comprar o animal por pena. Uma vez retirado a natureza, o mal já está feito, dificilmente esse animal voltará a vida livre. Ele estará praticamente condenado a viver pelo resto da sua vida enjaulado.

Qual o risco de manter um animal silvestre em cativeiro?

São muitos. Acredito que o risco de transmissão de doenças seja o mais grave. Um animal que capturado na natureza não passa por nenhum tipo de controle sanitário. E a grande maioria deles transmitem doenças sérias e graves ao ser humano. O comprador de um animal ilegal está sendo três vezes burro, primeiro por que está comprando aquilo que já lhe pertence; segundo por que está destruindo a natureza e terceiro por que está expondo a sua família e os seus vizinhos ao risco de contágio de alguma moléstia. Só para citar algumas doenças que são transmitidas ao ser humano pelos animais, cito a febre amarela, a toxoplasmose, a raiva e a leschimaniose, entre outras. Isso sem falar nos vírus ainda desconhecidos da medicina. Veja o que está ocorrendo no mundo com essa pneumonia asiática, que agora os cientistas desconfiam que surgiu pelo consumo de carnes da fauna silvestre. O movimento em defesa dos animais tem crescido bastante não só no Brasil como em todo o mundo, muitas Ongs tem adotado a causa e através de todas as mídias possíveis têm alertado a sociedade. Mas por que é tão difícil proibir o contrabando de animais silvestres? Além de todas as dificuldades já citadas, está a cultura do nosso povo, que enxerga o animal silvestre como um bichinho de estimação. O egoísmo é a fonte propulsora de toda essa demanda pela nossa fauna. Poucos são os que prezam a existência de um bem comum. Para muitos um animal só tem valor se ele tiver um dono. O desejo da propriedade é muitas vezes mais forte que o desejo de compartilhar nossas riquezas. Como quase tudo de ruim que acontece em nosso país, a base do tráfico da vida selvagem é sustentada pela vaidade e apego ao lucro fácil.

Qual o conselho o senhor pode dar às pessoas para que não comprem animais silvestres?

Que o comércio de animais silvestres é crime. Quem compra ou vende ilegalmente a nossa fauna, pratica um crime que irá afetar a todos nós. Mas os principais atingidos serão os netos e bisnetos que ainda estão por vir e que serão obrigados a conhecer a nossa biodiversidade através dos livros. A eles restará o pleno direito de nos acusar de irresponsáveis e gananciosos. 

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