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O desejo de possuir animais exóticos estimula o comércio e o contrabando de primatas — Foto: Arquivo TG

Onde está a fauna brasileira? Panorama do tráfico de animais revela futuro preocupante

on June 24 | in Destaques, Fauna na Mídia, Renctas na Mídia | by | with No Comments

Brasil. A casa para o maior número de espécies animais do mundo é também a principal área de captura e comércio ilegal da vida silvestre.

Considerado a terceira maior atividade ilícita, depois das armas e das drogas, o tráfico de animais movimenta pelo menos 10 bilhões de dólares por ano. E é do Brasil que grande parte das espécies é retirada.

O desejo de possuir animais exóticos estimula o comércio e o contrabando de primatas — Foto: Arquivo TG

O desejo de possuir animais exóticos estimula o comércio e o contrabando de primatas — Foto: Arquivo TG

De acordo com o coordenador geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), Dener Giovanini, os países com maior variedade de espécies animais são os preferidos pelas quadrilhas e organizações criminosas, tanto para exportação quanto para o comércio nacional.

“Grande parte dos animais capturados ilegalmente são vendidos aqui no País, mas outra parte considerável abastece os mercados internacionais”, diz.

De cada 100 animais, pelo menos 70% são comercializados no Brasil

Tido como um importante fornecedor para o tráfico internacional, o Brasil passou a se destacar também pela importação ilegal de espécies. “O interesse por serpentes, aranhas e escorpiões como animais de criação tem aumentado o número de importações”, explica Dener, que alerta para uma séria consequência ambiental. “A inevitável disseminação de espécies invasoras podem causar graves problemas pro País”, completa.

Os países com maior biodiversidade são os principais alvos das quadrilhas — Foto: Arte/TG

Os países com maior biodiversidade são os principais alvos das quadrilhas — Foto: Arte/TG

A preocupação não é em vão: zoonoses como febre amarela, hepatite A, malária, tuberculose, raiva e toxoplasmose, por exemplo, podem ser transmitidas pelos primatas e, se não tratadas adequadamente, são doenças letais.

A fauna exótica introduzida pode se tornar invasiva, conquistar áreas muito maiores do que as previstas, suprimir a fauna nativa e transmitir novas doenças. Mais de 180 tipos de zoonoses transmitidas por animais já são conhecidas

O jabuti é o réptil mais comercializado nas feiras brasileiras — Foto: Arquivo TG

O jabuti é o réptil mais comercializado nas feiras brasileiras — Foto: Arquivo TG

Estado de alerta

Além dos problemas sanitários e dos riscos com espécies invasoras, o tráfico de silvestres ameaça a sobrevivência dos ecossistemas.

Só no Brasil, 38 milhões de animais são retirados da natureza por ano. Por isso, a caça para subsistência ou comércio ilegal é a segunda principal ameaça à fauna brasileira, após a perda do habitat.

“Toda a questão ambiental do Brasil é muito preocupante. Ameaças, como a perda de cobertura vegetal e a diminuição das áreas de conservação, devem fazer parte de uma agenda onde as ações sejam interligadas”, destaca Dener, que entende a necessidade de estratégias eficientes para ações de fiscalização.

O estresse emocional é uma das consequências dos maus tratos durante a captura ilegal — Foto: Arquivo TG

O estresse emocional é uma das consequências dos maus tratos durante a captura ilegal — Foto: Arquivo TG

“Políticas estão sendo implementadas de forma a diminuir a fiscalização, políticas que vão necessariamente levar a uma diminuição das áreas protegidas e isso, sem dúvida, prejudica o meio ambiente”, lamenta.

Nós nunca estivemos em uma situação tão crítica, tão perigosa e tão negativa no que diz respeito à proteção dos recursos ambientais brasileiros. A situação é extremamente preocupante e com um cenário ameaçado no horizonte do País
— Dener Giovanini, coordenador geral Renctas

Na luta contra a ilegalidade

Os esforços para mudar esse cenário, porém, apresentam resultados: desde 2000, as equipes da Renctas – uma instituição sem fins lucrativos -, elaboram ações e estratégias contra o comércio ilegal da fauna brasileira, produzindo dados e diagnósticos sobre a prática e capacitando forças de fiscalização.

 O contrabando de grande porte pode envolver grandes comerciantes brasileiros e estrangeiros — Foto: Arte/TG

O contrabando de grande porte pode envolver grandes comerciantes brasileiros e estrangeiros — Foto: Arte/TG

Além disso, campanhas de educação ambiental motivam a sociedade a lutar pelo combate da prática ilegal. “Antigamente o comércio de animais era corriqueiro. Era comum encontrar espécimes à venda em feiras livres, por exemplo. Depois de todos esses anos de trabalho de conscientização, as pessoas passaram a entender que isso não é normal e que a sociedade não deveria tolerar uma prática que trazia tantos prejuízos”, comenta o especialista.

“Infelizmente o Brasil sempre tolerou o tráfico de animais, porque existiam pouquíssimas informações sobre a prática. Hoje, as pessoas denunciam e repreendem os traficantes. Isso é um grande feito, talvez o maior sucesso da Renctas na história do País”, completa.

Tiramos o véu que cobria essa ilegalidade. Lutamos para fazer com que o Brasil conhecesse a realidade do tráfico de animais silvestres e o trabalho ajudou no despertar de consciência da sociedade
— Dener Giovanini, coordenador geral Renctas
Os países em desenvolvimento são os principais fornecedores de vida silvestre — Foto: Arquivo TG

Os países em desenvolvimento são os principais fornecedores de vida silvestre — Foto: Arquivo TG

Feliz com as conquistas, Giovanini enxerga ainda um longo caminho na luta contra o tráfico. “Nós temos alguns entraves que precisam de solução. O problema é que ainda não há uma política de estado adequada para a gestão da nossa fauna silvestre”, aponta.

De acordo com o especialista, as instabilidades nas normas que regulamentam a criação de animais silvestres e a fiscalização impedem que as leis sejam seguidas com rigor. “É necessário que sejam feitos ajustes na legislação ambiental para que ela seja mais eficiente no combate ao tráfico”, diz.

Uma sugestão para transformar esse cenário é unificar as responsabilidades e competências dos Órgãos do Sistema Nacional do Meio Ambiente. “É primordial que os governos federal, estaduais e municipais atuem de maneira mais harmônica, investindo no desenvolvimento de estratégias para evitar que os animais saiam da natureza”, completa Dener.

O estresse durante a comercialização provoca a queda de resistência imunológica e o desenvolvimento de doenças — Foto: Divulgação/Renctas

O estresse durante a comercialização provoca a queda de resistência imunológica e o desenvolvimento de doenças — Foto: Divulgação/Renctas

Foco do tráfico

Seja para pesquisas científicas ilegais, para colecionadores particulares ou para aquisição de animais de companhia, o tráfico atua com as mais diversas espécies brasileiras.

“A maior parte dos animais traficados no Brasil são as aves, seja pelo belo canto, como o trinca-ferro, bicudo e canário-da-terra, ou pela bela plumagem. No entanto, eu diria que todos os animais da nossa biodiversidade são vulneráveis ao tráfico”, explica o coordenador.

Na lista constam ainda mamíferos, anfíbios, insetos e peixes — Foto: Arte/TG

Na lista constam ainda mamíferos, anfíbios, insetos e peixes — Foto: Arte/TG

Além das aves, oferecidas como animais de estimação ou para venda das penas, a lista conta com as tartarugas, consideradas iguarias culinárias; jabutis, comercializados para colecionadores; e diversos mamíferos. “Os primatas em geral também são muito procurados, principalmente como animais de companhia”, conta.

De acordo com o levantamento de dados feito pela Renctas, as espécies também são traficadas para comercialização do couro, principalmente das lontras e dos felinos; para pesquisas científicas ilegais e para colecionadores.

A retirada das espécies prejudica a dispersão de sementes e afeta no equilíbrio das florestas — Foto: Arquivo TG

A retirada das espécies prejudica a dispersão de sementes e afeta no equilíbrio das florestas — Foto: Arquivo TG

“O tráfico para colecionadores particulares talvez seja o mais cruel e prejudicial, porque visa as espécies mais ameaçadas de extinção. Quanto mais ameaçado for um animal, mais procurado ele se torna”, comenta o coordenador da ONG.

Vítimas do tráfico, os répteis também são explorados das mais diversas formas: além da comercialização do couro das serpentes e dos jacarés para produção de sapatos, cintos e artigos de moda, os animais são vendidos como pets e para pesquisas biomédicas.

A jiboia é uma das cinco espécies mais comercializadas, sendo a cobra mais popular como animal de estimação nos Estados Unidos. As cobras venenosas, como as jararacas, são de grande valor para o mercado biomédico

Chamado de biopirataria, o tráfico de animais para fins científicos também é comum nessa “cadeia de ilegalidades”, onde substâncias químicas de serpentes, sapos, aranhas e besouros são aproveitadas para pesquisas ilegais e produção de medicamentos.

Ameaçada de extinção, ariranha é caçada para o comércio do couro — Foto: Ananda Porto/TG

Ameaçada de extinção, ariranha é caçada para o comércio do couro — Foto: Ananda Porto/TG

Crueldade

Entre os tipos de tráfico existe ainda a venda ilegal para ‘produtos de fauna’, quando o couro, peles, penas, garras e presas são comercializados para o mercado da moda. É o caso das borboletas, utilizadas para artigos de decoração como quadros, tampas de vaso sanitário e brincos, por exemplo.

A prática é responsável por aumentar ainda mais as estatísticas negativas do tráfico ilegal: é estimado que para cada produto animal, pelo menos três espécimes são sacrificados.

Os números pioram quando os bichos vivos são comercializados. Estima-se que de 10 animais traficados apenas um sobreviva

Quase todas as espécies da fauna brasileira são traficados como animais de companhia — Foto: Divulgação/Renctas

Quase todas as espécies da fauna brasileira são traficados como animais de companhia — Foto: Divulgação/Renctas

O alto índice de mortalidade é resultado dos maus tratos e das precárias condições oferecidas durante a captura e transporte das espécies. Muitas vezes os animais se ferem ao tentar fugir, sofrem com estresse emocional ou são descartados quando apresentam problemas na pele.

A crueldade vai além quando as fêmeas de diversas aves são descartadas por não ter valor comercial, ou durante a captura dos filhotes.

Arara-azul-de-lear está extremamente ameaçada de extinção — Foto: Sergio Gregorio/VC no TG

Arara-azul-de-lear está extremamente ameaçada de extinção — Foto: Sergio Gregorio/VC no TG

Extinção

A quantidade de animais retirados da natureza para venda ilegal naturalmente interfere no status de conservação das espécies. A arara-azul-de-lear, por exemplo, se tornou extremamente ameaçada por conta do tráfico, assim como a arara-azul do Pantanal e a jararaca-ilhoa, endêmica da Ilha de Queimada Grande (SP) e criticamente ameaçada de extinção.

“De maneira geral o tráfico compõe uma cadeia de diversos fatores que vão aumentando ainda mais a vulnerabilidade das espécies”, comenta Dener.

Trabalhos de reabilitação são essenciais para os animais apreendidos — Foto: Divulgação/Associação Mata Ciliar

Trabalhos de reabilitação são essenciais para os animais apreendidos — Foto: Divulgação/Associação Mata Ciliar

A rotina de captura ilegal também interfere no desenvolvimento das espécies: os pássaros canoros, por exemplo, são retirados no período reprodutivo. Além disso, muitos animais são capturados ainda filhotes, o que reduz o número de jovens nas populações.

Se o nível de exploração exceder à capacidade natural de reposição das populações selvagens, estas tendem a desaparecer ao longo dos tempos

Junto à extinção da fauna, todo o ecossistema sofre com o ciclo do tráfico. A diminuição das espécies predadoras de sementes favorece a dominância de algumas árvores, assim como a ausência de dispersores afeta a reprodução da flora. Dessa forma, toda estrutura da floresta é alterada.

Fonte: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2019/06/24/onde-esta-a-fauna-brasileira-panorama-do-trafico-de-animais-revela-futuro-preocupante.ghtml

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