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Revista do Terceiro Setor – Natureza contestatória

on June 3 | in FIQUE POR DENTRO, Renctas na Mídia | by | with No Comments

Neste 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, não faltam motivos para as organizações ambientalistas se preocuparem. No Brasil, especialmente. Como se não bastasse a devastação recorde registrada na Amazônia no último ano (a segunda maior já medida), uma pesquisa nacional encomendada pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) ao Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) mostrou que a população vê com desconfiança o trabalho das ONGs que lidam com a questão ambiental: 57% das pessoas entrevistadas acham o trabalho desenvolvido por essas entidades pouco ou nada confiável.

Essa visão reflete algumas denúncias feitas a respeito da atuação de instituições específicas e revela o pouco conhecimento de brasileiros e brasileiras sobre a abrangência e a solidez do trabalho da grande maioria das entidades que trabalham em prol do meio ambiente.

“A sociedade tem dificuldade, até em função do pouco acesso a informação, de separar o joio do trigo. Se algumas organizações têm uma conduta errada, a tendência é condenar todas as demais”, diz Dener Giovanini, coordenador geral da Renctas.

A denúncia mais recente foi levada a público com o afastamento da organização não-governamental norte-americana Amazon Conservation Team dos povos indígenas, em audiência pública realizada no dia 18 de maio pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Biopirataria. A ONG, que desenvolve um trabalho com a comunidade indígena do Parque do Xingu e está sendo investigada pelo Ministério Público, é acusada de praticar biopirataria e de receber financiamento de empresas ligadas à produção de cosméticos e medicamentos.

Casos isolados como esse acabam sendo referência para se julgar todo um conjunto heterogêneo de organizações. Na edição de 1º de junho da revista IstoÉ Dinheiro, a reportagem intitulada “Amazônia: querem tomar essa riqueza” fala da repercussão internacional das estatísticas mais recentes sobre o recrudescimento no desmatamento amazônico, a invasão da soja no cerrado e na floresta tropical, a multiplicação da exploração da madeira, além de relacionar o trabalho das ONGs ambientalistas aos interesses de transnacionais e à internacionalização da Amazônia.

A reportagem faz ainda uma acusação direta ao Greenpeace – segundo seu diretor executivo, Frank Guggenheim, sem ouvir a organização – no trech “a tese do Greenpeace é a de que a madeira da Amazônia não deve ser explorada nem mesmo como manejo florestal”.

“Se os repórteres tivessem ao menos consultado o website do Greenpeace, teriam visto que o manejo florestal em bases sustentáveis é uma das alternativas defendidas pela organização para o desenvolvimento sustentável da Amazônia”, afirma Frank Guggenheim em carta enviada à revista IstoÉ Dinheiro.

Não é preciso ir muito atrás no tempo para localizar outra reportagem que acusa ONGs da área de meio ambiente de estarem a serviço de interesses internacionais. No dia 8 de maio, o jornal O Estado de São Paulo publicou a matéria “ONGs são fachadas para países ricos, diz relatório”, que seria baseada em um relatório secreto da Agência Brasileira de Informação (Abin).

Frank Guggenheim destaca que esse tipo de reportagem – que acusa ONGs sem comprovação e não ouve as entidades citadas – é recorrente na mídia e quase sempre baseado num livro chamado “A Máfia Verde”, escrito por Lorenzo Carrasco. O livro, explica Frank, fala de uma conspiração mundial “inacreditável” contra a democracia, da qual os movimentos ambientalistas e indigenistas fariam parte.

“A desconfiança da sociedade tem um lado positivo, pois ajuda a aumentar a sua percepção sobre os problemas que o país enfrenta. Porém essa mesma desconfiança, quando é isenta de critérios de avaliação, prejudica muito as instituições que atuam de maneira eficaz e honesta. Com a desconfiança generalizada, é muito mais difícil conseguir doações ou parceiros”, analisa Dener Giovanini.

Além das denúncias, o alarme feito com base em dados oficiais sobre a realidade ambiental no país contribui para desacreditar o trabalho realizado tanto pelo governo quanto por organizações ambientalistas. Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados pelo governo federal no dia 18 de maio sobre o desmatamento na Amazônia brasileira, revelam que a região perdeu mais de 26 mil metros quadrados de floresta de agosto de 2003 a agosto de 2004, a segunda mais alta taxa de desmatamento registrada no país. A prisão de 78 pessoas suspeitas de extração e transporte ilegal de madeira [no dia 2 de junho] pela Polícia Federal, no Mato Grosso, é mais um fato que direciona o foco para os problemas ambientais na mídia.

“É importante que as ONGs ampliem seu poder de comunicação junto à sociedade. Informar sobre o trabalho que vem sendo realizado é fundamental – e, mais do que isso, mostrar os resultados alcançados. A sociedade brasileira ainda desconhece as mudanças positivas que o terceiro setor trouxe para o Brasil. Ainda temos um longo caminho a seguir, e ter a sociedade como uma aliada é o primeiro passo”, defende o coordenador da Renctas.

Mario Mantovani, diretor de mobilização da SOS Mata Atlântica, ressalta que houve uma proliferação de ONGs dos mais diversos níveis de dimensão e qualidade nos últimos anos, mas que a discussão sobre o Marco Legal e debates de esclarecimento sobre as ações das ONGs – como o seminário realizado pela Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (Abong) em maio – tendem a melhorar as informações para a sociedade sobre esse universo e a visibilidade positiva das organizações.

Para o diretor da SOS Mata Atlântica, a transparência deve ser a principal preocupação das organizações. “As entidades têm que ter objetivos claros, determinação, coerência e transparência. Trabalhar com redes como a Abong e o Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS), entre outras, também ajuda a evitar essas difamações. As redes ajudam a unir e filtrar as organizações com interesses em comum”, acredita Mário.

O Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) é uma das redes que reúnem organizações cujo trabalho é reconhecido principalmente entre as comunidades locais da região. O GTA tem hoje 602 entidades filiadas, incluindo organizações não-governamentais e movimentos sociais que representam seringueiros, castanheiros, quebradeiras de coco, pescadores artesanais, ribeirinhos e comunidades indígenas, além de pequenos agricultores e suas famílias.

O impacto do trabalho dessas organizações populares é observado no dia-a-dia. “Nos últimos anos, temos visto uma compreensão maior de desenvolvimento sustentável pela população local. Além disso, temos aumentado o diálogo com universidades e governos locais. Vemos também que a cooperação com os movimentos sociais tem sido maior nos locais onde há uma diretriz progressista e sustentável por parte dos governos”, conta José Arnaldo de Oliveira, coordenador de Comunicação e Campanhas do GTA.

O diretor executivo do Greenpeace diz que a confiabilidade depende muito das ONGs e que o resultado da pesquisa do Ibope é muito relativo, mas reconhece que existem campanhas contra a conduta de determinadas organizações, com o intuito de difamar ONGs em geral. “Essas campanhas são uma reação contra as ONGs combativas, que fazem denúncias que incomodam muita gente, como setores do agronegócio e da agropecuária. Em Belém (PA), por exemplo, vemos regularmente campanhas de outdoor contra o Greenpeace. Mas nós trabalhamos muito próximos às comunidades, e elas são a nosso favor”, garante.

José Arnaldo acrescenta que também existe um discurso deturpado por parte desses setores, de que as ONGs são contra o desenvolvimento. “As ONGs ambientalistas são, por natureza, contestatórias, e não podem ignorar as questões sociais. Por isso há um interesse claro de setores políticos e, principalmente, econômicos de desacreditar o trabalho de ONGs”, diz. Colocar questões ambientais nos debates políticos e dar voz às pequenas comunidades que cuidam do meio ambiente são os principais papéis das ONGs ambientalistas, ressalta.

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