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Revista Veja – Edição 1828 – Guerrilheiro ecológico

on November 12 | in FIQUE POR DENTRO, Renctas na Mídia | by | with No Comments

Combate ao tráfico de animais dá a brasileiro o mais importante prêmio ambiental da ONU

Lucila Soares

Nos fundos de uma confortável casa, em Brasília, um quarto abriga uma estranha coleção de objetos. À primeira vista, parece um conjunto kitsch. São cocares indígenas, chaveiros de resina, amuletos diversos. Quando os olhos se acostumam à penumbra, começam a surgir coisas que, aparentemente, não guardam relação alguma com o grupo anterior: maletas estilo 007, tubos de PVC, jaquetas velhas, garrafas térmicas. Apesar do aspecto caótico, há no conjunto grande coerência interna. Na casa funciona a ONG Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), e tudo o que está ali reunido tem relação com uma atividade que movimenta a espantosa cifra de 1,5 bilhão de dólares por ano. A história que esses objetos contam acaba de render a um jovem ecologista de 35 anos o mais importante prêmio ambiental da Organização das Nações Unidas (ONU). No próximo dia 19, o fluminense Dener Giovanini receberá o prêmio Sasakawa das mãos do secretário-geral da ONU, Kofi Annan.

A escolha de Giovanini premia um persistente trabalho de coleta, organização e difusão de informação. Esse é o coração da atividade da Renctas, criada por ele em 1999. A rede conta com o trabalho voluntário de 980 pessoas em todo o país, faz treinamento de policiais florestais, agentes de fiscalização de aeroportos e fronteiras e veterinários. E, principalmente, divulga as histórias de ousadia e crueldade que envolvem o tráfico, numa guerra de guerrilha que já resultou na prisão de 100 criminosos. Os números são de arrepiar. Só 10% dos 38 milhões de animais capturados ilegalmente por ano no Brasil chegam a ser comercializados (veja quadro). Os 90% restantes morrem. Muitos porque é mais fácil, por exemplo, arrancar penas de uma ave morta. Para fazer um cocar como os da foto desta página, é preciso utilizar cerca de trinta papagaios ou araras, porque cada animal possui apenas três penas grandes e bonitas, no rabo.

A maioria, no entanto, acaba morrendo por causa das condições de transporte. É para isso que servem as tais maletas 007 e os tubos de PVC. As maletas são forradas de gaiolinhas nas quais se transportam beija-flores e outras aves de pequeno porte. Os tubos servem para acondicionar aves maiores. Para fazer com que elas caibam ali, muitas vezes é preciso quebrar-lhes o osso do peito – o que serve também para manter quietas as que chegam vivas ao destino. A dor as paralisa. Outra maneira de “acalmar” a bicharada é injetar-lhes álcool. É assim que se faz normalmente com macacos, que são transportados de modos mais estranhos. Há pouco mais de um ano foi apreendida uma partida de micos que viajavam dentro de garrafas térmicas. Bichos menos frágeis, como répteis, são simplesmente jogados dentro de malas de viagem e despachados como bagagem comum, o que já provocou situações inusitadas. Dois anos atrás, num domingo, Giovanini recebeu um telefonema de uma apavorada delegada que estava de plantão no Aeroporto de Guarulhos. Ela apreendera duas malas, suspeitando de tráfico de drogas. Ao abri-las, topou com 500 sapos e 200 serpentes. Com o aperto da fiscalização, tornou-se comum o transporte de ovos de aves e de répteis em forros falsos de jaquetas. Se o traficante é preso, basta quebrar os ovos para livrar-se do flagrante. Ninguém imagina que a fiscalização disponha de equipamento para fazer exames de DNA que identifiquem a origem da omelete.

O combate ao tráfico de animais envolve enormes dificuldades. A primeira é a pulverização da atividade, que abastece mercados variados. Entre as quadrilhas de biopiratas, que contrabandeiam serpentes, sapos e seus venenos, e os colecionadores internacionais de animais exóticos, que chegam a pagar 60.000 dólares por alguns tipos de arara e aderem a modas estranhíssimas, como criar jibóia, existe uma gama de atividades que parecem desimportantes. É o caso do artesanato. Quem compra um cocar não imagina que o objeto é resultado de uma chacina de papagaios, assim como quem gosta daquelas horríveis bandejas de borboletas azuis não pensa que essa é uma indústria que mata milhões de animais por ano. Mesmo pessoas que gostam de passarinho não fazem idéia do caminho que o bicho percorreu até chegar a sua casa, muito menos do efeito que a captura indiscriminada de algumas espécies pode ter a longo prazo sobre o meio ambiente. “O que a gente tenta mostrar é que não existe fábrica de bicho”, diz Giovanini.

Dito assim, parece simples. Mas, além de complicado, é arriscado. Nosso ecologista premiado já teve seus momentos de Indiana Jones. Meteu-se sozinho em feiras de animais fazendo-se passar por comprador, filmou traficantes com câmera escondida, rastreou sites de venda de animais na internet para descobrir e denunciar chefes de quadrilha. Numa dessas ocasiões foi descoberto e, para escapar, ficou horas a fio escondido num banheiro. A ameaça mais grave aconteceu no Rio de Janeiro, onde há dois anos foi rendido por homens armados que o avisaram que devia parar de se meter com o comércio de animais. Depois disso, mudou-se para Brasília e passou a adotar procedimentos de segurança básicos, como fazer várias reservas de passagem aérea e hotel, evitar itinerários fixos e trocar periodicamente de carro. Na sede da Renctas não há nenhuma placa que a identifique, e seu endereço não tem divulgação pública.

O que torna a história de Giovanini particularmente saborosa é que tudo nela aconteceu muito por acaso. Ele se envolveu com a defesa do meio ambiente aos 15 anos, por puro arroubo juvenil. Decidiu dedicar-se com mais afinco à causa depois da conferência mundial do meio ambiente realizada no Rio de Janeiro, em 1992. Em 1998 foi nomeado secretário de Meio Ambiente de Três Rios, município fluminense de 70.000 habitantes próximo à divisa de Minas Gerais. Lá, chamou-lhe a atenção a quantidade de animais apreendidos pela Polícia Rodoviária no trevo próximo à cidade, que é um entroncamento rodoviário importante. Ao buscar orientação, deparou com uma completa dispersão dos poucos dados disponíveis. Nasceu aí a idéia de uma rede de informações sobre o tráfico que em 1999 deu origem à Renctas e, agora, ao prêmio. “Ainda não consegui ter a dimensão do que está acontecendo”, diz Giovanini. Compreende-se. Antes do Sasakawa, sua maior honraria fora a Ordem do Mérito da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

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