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Fecomércio – Rio de Janeiro Entrevista- Dener Giovanini

on novembro 19 | em FIQUE POR DENTRO, Renctas na Mídia | by | with No Comments

“Biopirataria no Brasil rende bilhões por ano”

O tráfico de animais silvestres é a terceira maior atividade ilegal em todo o mundo, só perdendo para o tráfico de armas e o de drogas. Somente no Brasil, essa atividade movimenta, anualmente, cerca de US$ 1,5 bilhão.

A denúncia é do coordenador-geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), Dener Giovanini. A Renctas é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos, que tem por missão combater o tráfico de animais silvestres e lutar pela preservação da biodiversidade.
A Renctas foi inspirada em vários organismos internacionais de combate ao tráfico de animais e plantas, com os quais a instituição brasileira mantém intercâmbio.
Apesar de centrar sua atenção no combate ao tráfico de animais, a Renctas atua também contra a destruição da flora e conta com 580 instituições filiadas e 30 mil membros, que agem como fiscais ambientais.
O trabalho desenvolvido no Brasil ganhou ressonância internacional e, em maio de 2002, a Renctas receberá um prêmio a ser entregue pelo presidente americano George W. Bush.
SISTEMA– O tráfico de animais e plantas silvestres está crescendo?
DENER GIOVANINI – Não é possível afirmar que essa atividade ilegal está aumentando, simplesmente porque no Brasil, até o surgimento da Renctas, ninguém tinha se preocupado em levantar dados sobre esse assunto. Neste momento, estamos finalizando o I Relatório Nacional sobre o Tráfico de Animais Silvestres, com as estatísticas dessa atividade, que hoje representa uma das maiores ameaças à biodiversidade.

SISTEMA – Por que é tão difícil combater o tráfico de animais e plantas silvestres?
GIOVANINI – Por várias razões. A principal delas é que no Brasil manter animais silvestres como animais de estimação faz parte da cultura. A falta de fiscalização e as falhas na lei também contribuem para isso. Precisamos combater essa atividade ilegal em duas frentes: aumento da fiscalização e conscientização da sociedade.

SISTEMA – A venda de animais silvestres no Brasil é permitida?
GIOVANINI – É permitida, sim. Porém, eles devem ser comprados somente em lojas autorizadas pelo Ibama e devem vir acompanhados de nota fiscal. O animal também deve estar anilhado ou microchipado. É importante ressaltar que nem todas as espécies silvestres brasileiras podem ser comercializadas.
SISTEMA – O senhor tem idéia do volume de recursos que movimenta esse comércio ilegal?
GIOVANINI – O volume de dinheiro envolvido é enorme. Para você ter uma idéia, o tráfico de animais silvestres é a terceira maior atividade ilegal do mundo, só perdendo para o tráfico de armas e o de drogas. Movimenta anualmente no Brasil cerca de US$ 1,5 bilhão. Algumas espécies brasileiras chegam a custar US$ 60 mil o exemplar na Europa. É o caso da arara azul de lear, que está desaparecendo. Atualmente, existem pouco mais de 200 exemplares em liberdade na natureza. A lógica do tráfico é muito cruel, pois quanto mais ameaçada é uma espécie, maior valor ela alcança no mercado ilegal.
SISTEMA – Quantos animais silvestres são traficados por ano no Brasil?
GIOVANINI – Fontes governamentais estimam que sejam retirados da natureza cerca de 12 milhões de animais por ano. Porém, é importante saber que, de cada dez animais que saem das matas para serem comercializados, apenas um chega na mão do consumidor final. Os outros nove morrem durante a apanha ou o transporte. Os traficantes vêm os animais como uma mera mercadoria, não têm a menor preocupação com a sua saúde ou bem-estar. É muito comum encontrarmos nas feiras livres macacos que parecem mansos, mas que, na realidade, estão bêbados porque os tra-ficantes injetam álcool em suas veias. No caso das aves, uma grande parte tem os olhos furados para que não enxergue a luz do dia e assim não cante, evitando chamar a atenção da fiscalização.

SISTEMA– Como a Renctas tem ajudado a combater esse crime?
GIOVANINI – A Renctas atua em várias frentes: treina e capacita agentes de fiscalização em todo o país através da realização de workshops, elabora e mantém dados atualizados sobre a ação de traficantes, apóia a realização de operação de fiscalização, através da participação direta de seus voluntários, e desenvolve campanhas de educação ambiental, com a distribuição gratuita de material informativo, como vídeos, cartazes e folderes. Além disso, a Renctas faz constantes reuniões com agentes do governo para discutir políticas públicas que ampliem o poder da fiscalização.

SISTEMA– Desde quando a Renctas existe e como sobrevive?
GIOVANINI – A Renctas existe há dois anos, e já conta com mais de 500 instituições e 30 mil membros em todo o país. Os recursos da Renctas vêm principalmente da iniciativa privada e da contribuição espontânea de pessoas físicas. Não contamos com nenhuma ajuda pública. Os recursos disponíveis são muito poucos perto do que ainda precisamos fazer. Quem quiser ajudar pode entrar em contato conosco pela home page na Internet (www.renctas.org.br ) ou enviar um e-mail ( renctas@renctas.org.br).
SISTEMA– Como o comércio de bens e serviços pode ajudar ?
GIOVANINI – A participação desse segmento da sociedade é fundamental, principalmente pelo contato permanente com o público. Estamos pensando, inclusive, em criar uma grande parceria com agentes desse setor para desenvolvermos campanhas de conscientização, utilizando os próprios pontos de venda.
SISTEMA– O senhor acredita que será possível uma vitória na luta contra o tráfico de animais e plantas?
GIOVANINI – Sim. Pode demorar, mas vamos conseguir. O povo brasileiro tem um grande poder de mobilização e é sensível a essas causas. Mas precisamos estar atentos. Pois o tempo age contra nós. Neste momento, muitos animais foram capturados e algumas espécies da nossa flora ficaram mais perto da ameaça de extinção. Sabemos o quanto é difícil fiscalizar a Amazônia, mas não podemos aceitar que pesquisadores inescrupulosos trabalhem livremente na floresta, pesquisando os efeitos de plantas medicinais ou capturando animais.
SISTEMA – Quais os projetos da Renctas para o ano 2002?
GIOVANINI – Um dos projetos é o documentário Expedição Ecológica: Fauna Brasileira, em co-produção com a Guapuruvu Filmes. O filme será usado na Campanha Internacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres.
SISTEMA– Além de ter sua fauna ameaçada, o que mais o Brasil perde com o tráfico?
GIOVANINI – O Brasil perde uma quantia incalculável com essa atividade criminosa. Infelizmente, a maioria dos nossos políticos e economistas desconhecem o significado do acesso estrangeiro aos nossos recursos genéticos. Só o mercado de hipertensivos, que utiliza como química base o veneno extraído de serpentes brasileiras, movimenta anualmente US$ 500 milhoes no mundo. O Brasil não ganha um centavo com esse comércio. Ganha apenas remédios mais caros nas prateleiras, muitos deles também originários de nossas plantas e ervas. Outro exemplo foi a recente descoberta em sapos amazônicos de uma substância muito mais poderosa que a morfina. Essa subs-tância levará a uma revolução no tratamento de doenças como o câncer, pois, além de não causar efeito colateral, não cria dependência. Sabe o que vamos ganhar com isso? Nada! Aliás, vamos sim: mais uma espécie na nossa lista de animais ameaçados de extinção.
SISTEMA – A falta de fiscalização favorece o tráfico?
GIOVANINI – Sim, mas seria ingenuidade achar que só a falta de fiscalização é responsável pela existência do tráfico. Para combatermos o tráfico e a biopirataria é necessário que cada um faça a sua parte: que o governo fiscalize e que a sociedade, além de não comprar animais silvestres ilegalmente, denuncie os casos que presenciar. No caso de plantas e ervas, uma fiscalização efetiva nos portos e aeroportos seria o mais adequado. Um sujeito que tenta sair levando plantas não o está fazendo pelo exotismo, e sim porque aquela planta ou raiz tem algum bem medicinal que vai voltar como remédio.
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