Jornal de Brasília – Cerco ao tráfico de animais | RENCTAS |
Related »

Jornal de Brasília – Cerco ao tráfico de animais

on fevereiro 18 | em FIQUE POR DENTRO, Renctas na Mídia | by | with No Comments

Em Ceilândia e Samambaia, Polícia Florestal recolhe pássaros vendidos de forma irregular.

Márcia Delgado

A Polícia Florestal está apertando o cerco ao tráfico e ao comércio ilegal de animais silvestres no DF. Somente ontem, numa megaoperação, em Ceilândia e Samambaia, principais pontos de vendas desses animais, foram apreendidos 77 pássaros que estavam sendo comercializados irregularmente, frutos do tráfico.

As feiras livres de Samambaia e Ceilândia foram o ponto de partida dos policiais. Nos dois locais eles apreenderam 49 pássaros, alguns de espécies raras, como o corrupião e pássaro preto.

Por uma denúncia anônima, eles chegaram ainda em uma casa, em Samambaia, onde os moradores criavam irregularmente 28 animais silvestres, entre eles um papagaio. Quatro pessoas foram detidas.

A operação, na verdade, começou no sábado, quando os policiais montaram uma barreira na BR-020, no Posto Colorado, e apreenderam quatro carcaças de tatu, duas pacas e uma cotia mortas, que estavam em ônibus vindos de cidades do Nordeste. A caça e a comercialização da carne destes animais são proibidas. Nesta operação, ninguém foi preso porque a polícia não conseguiu identificar os donos das cargas.

Ontem, a Polícia Florestal mobilizou 120 homens, três viaturas e dois ônibus para cercar quem cria ou vende animais silvestres. Na Feira do Rolo de Samambaia Norte, foi feita a maior apreensão de pássaros silvestres: 42 no total. Na própria feira, os policiais receberam uma denúncia e chegaram à casa do servente da Novacap Antônio do Vale, 56 anos, na QR 514, conjunto 5, de Samambaia. Lá, a polícia encontrou 28 pássaros silvestres.

Antônio do Vale foi encaminhado para a 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia), onde foi registrada uma ocorrência. Ele disse que os animais eram de seu filho e admite que eles seriam comercializados. “Ele ganha pouco como entregador e este dinheiro ajuda”, justificou. Ele sabe que a prática é ilegal sem a autorização dos órgãos ambientais. “A gente tinha a licença, mas venceu”, lamenta.

Na Feira do Rolo da Ceilândia, a Polícia Florestal apreendeu sete pássaros silvestres que estavam em gaiolas ou alçapões e seriam vendidos. O preço médio dos animais encontrados facilmente na feira é de R$ 30. As espécies mais comuns são o canário-da-terra, curió, galo-de-campina, bicudo e pintassilgo. O canário belga, também comercializado em grande quantidade na feira, embora não seja um animal silvestre, não pode ser criado em cativeiro ou vendidosem a autorização do Ibama, segundo o capitão Edgar César Fernandes Rojas, um dos coordenadores da operação.

A operação da Polícia Florestal foi acompanhada de perto pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas), uma Organização Não-Governamental (ONG), e por uma equipe da rede de televisão BBC de Londres, que está fazendo um documentário sobre o tráfico de animais silvestres.

Quem quiser denunciar a criação e a venda de animais silvestres pode ligar para 301.3663 ou 301.1904 (Polícia Florestal do DF)

Três mil feiras irregulares em todo o País

No Brasil, a cada ano, 38 milhões de animais silvestres são retirados da natureza para serem comercializados ilegalmente. Existem no País três mil feiras que são pontos de vendas destes animais. Somente na feira de Samambaia Norte, a cada final de semana, são comercializados 500 pássaros silvestres, segundo cálculos da Renctas.

Estes animais, ainda de acordo com a ONG, são trazidos, em sua maioria, de cidades do Norte e Nordeste. As pessoas trazem de ônibus e os animais sofrem maus- tratos.

“Tem gente que fura com agulha os olhos dos pássaros para que eles não enxerguem a luz do dia e não cantem. Isto tudo para não chamar a atenção da fiscalização”, denuncia Dener Giovanini, coordenador-geral da ONG.

A crueldade não tem limites. Há pessoas, segundo Dener, que quebram o osso do peito das araras para que elas fiquem imóveis e pareçam mansas diante dos possíveis compradores.

“De cada dez animais silvestres que são retirados da natureza, apenas um chega ao consumidor. Os outros nove morrem por maus-tratos”, diz Dener.

No Distrito Federal, segundo ele, o maior comércio de animais silvestres é feito no varejo. Os pontos de vendas costumam ser as próprias residências destas pessoas, o que dificulta em muito o trabalho da fiscalização. “Daí a importância da participação da sociedade. Só a ação do governo não será suficiente para acabar com esta prática criminosa. Denuncie e não compre estes animais”, orienta Dener Giovanini.

Dados da Polícia Florestal e do Ibama revelam que Brasília é o terceiro principal ponto receptor de animais contrabandeados.

No ano passado, por exemplo, foi desbaratada uma quadrilha de traficantes que, somente para o DF, mandou cerca de mil papagaios, que chegam a ser vendidos por R$ 2 mil no mercado ilegal.

Muitos animais ficam aqui mesmo na cidade e outros, segundo os fiscais do Ibama, são levados para outros estados e até para outros países, de forma irregular. A maioria morre durante a viagem.

Comprar também é crime

Na Feira do Rolo da Ceilândia, a Polícia Florestal apreendeu dois walkie-talkies, equipamentos de comunicação que são usados pelas pessoas que vendem os animais silvestres para avisar da presença da polícia. Na chegada dos policiais à feira, houve correria e a maioria dos comerciantes de pássaros silvestres conseguiu escapar.

As três pessoas detidas em Ceilândia apresentaram suas explicações para tentar escapar do flagrante. “Comprei este canário-da-terra. Não estava vendendo”, esquivou-se o vigia Sinvaldo Ramos Xavier, 33 anos. Mas a justificativa não o livra de responder por crime ambiental, pois pela lei, comprar animal silvestre é proibido.

O ajudante de pedreiro Antônio Pereira da Costa, 32 anos, também foi detido. Ele tem uma banca na feira de Ceilândia que vende gaiolas e outros apetrechos. Lá, a polícia encontrou pássaros da espécie canário-da-terra. “Alguém jogou para fugir da polícia”, tentou se livrar Antônio.

Ele avisa que criar ou comercializar animais silvestres pode resultar em pena de seis meses a um ano de prisão. O criminoso pode, ainda, ter de desembolsar uma pesada multa. Se o animal que estiver em seu poder estiver ameaçado de extinção, o valor da multa pode chegar a R$ 5 mil.

Os animais são levados à perícia, depois para o Ibama ou o Zoológico. E soltos por determinação da Justiça, pois são a prova do crime. Os que estão abandonados vão ser devolvidos à natureza imediatamente.

Pin It

Related Posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

« »

Scroll to top