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O Estado de S. Paulo – Narcotráfico e animais silvestres: grande negócio

on junho 27 | em FIQUE POR DENTRO, Renctas na Mídia | by | with No Comments

Uma das atividades ilegais mais lucrativas do mundo já não é mais privilégio de mateiros

HERTON ESCOBAR

 Quem imagina o traficante de animais silvestres apenas como um mateiro que vende passarinhos na beira de estradas ou feiras na periferia vai ter de rever seus conceitos. A atividade, uma das três mais lucrativas do mundo – no ramo da ilegalidade -, está cada vez mais associada ao narcotráfico e ao contrabando internacional de armas. Em alguns casos, os animais são traficados junto com os entorpecentes. Em outros, são usados como moeda de troca e para lavagem de dinheiro. Até a máfia russa já descobriu as “facilidades” do comércio ilegal de fauna, calculado entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões.

As denúncias constam do relatório Comércio Internacional de Vida Selvagem e o Crime Organizado, divulgado pela organização britânica Traffic, afiliada da World Wildlife Fund (WWF). Segundo o documento, 50% dos traficantes de animais detidos na Grã-Bretanha têm condenações na Justiça também por tráfico de drogas, violência, roubo e crimes com arma de fogo. As conclusões batem com os dados do primeiro Relatório Nacional sobre o Comércio Ilegal de Fauna Silvestre, produzido no fim do ano passado pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas).

“Autoridades ao redor do mundo acreditam firmemente que o crime organizado está entrando cada vez mais no comércio ilegal de vida selvagem como uma atividade de poucos riscos e grandes recompensas”, diz o relatório. “Isso não é surpresa: as regiões que abrigam muitas espécies em extinção são, em algumas ocasiões, também conhecidas fontes de drogas.” É o caso da Colômbia, onde os cartéis e a guerrilha usam a floresta amazônica para plantar maconha e camuflar suas operações.

Baixo risco – Segundo o coordenador do programa de espécies da WWF na Grã-Bretanha, Stuart Chapman, a alta margem de lucro – de até 800% -, o baixo risco de detecção e a falta de punição tornam a atividade extremamente atrativa para organizações criminosas. No Brasil, o animal mais valioso para os traficantes é a arara-azul-de-lear, ameaçada de extinção e vendida por até US$ 60 mil no mercado negro. Uma coral-verdadeira rende mais de US$ 30 mil e um mico-leão-dourado, US$ 20 mil. Algumas espécies de aranhas valem até US$ 5 mil e de besouros, US$ 8 mil.

Só no Brasil existem cerca de 400 quadrilhas especializadas no tráfico de animais, segundo o relatório da Renctas. E cerca de 40% delas estão envolvidas também em outras atividades criminosas. “Em troca de uma parte nos lucros, os traficantes de drogas usam suas rotas já estabelecidas para tirar os animais do País. Ou oferecem seu esquema de segurança armada para os traficantes de fauna”, afirma Dener Giovanini, coordenador da Renctas.

Nos casos mais extremos, os traficantes escondem as drogas dentro dos animais. Embalagens com cocaína e outras drogas já foram encontradas dentro de cobras, araras e até peixes ornamentais. “Os traficantes de animais passam para outras atividades criminosas com muita facilidade”, diz José Carlos Araújo Lopes, da Coordenação Geral de Fiscalização Ambiental do Ibama.

Lei – Na cidade do Rio, onde funcionam mais de cem feiras livres de fauna ilegal, é comum os animais serem escondidos junto com as drogas e “protegidos” por narcotraficantes, segundo o delegado Ricardo Bechara, do Núcleo de Meio Ambiente da Polícia Federal do Rio. Ele aponta uma falha na legislação que vem beneficiando os traficantes ambientais e dificultando o trabalho das autoridades há quase um ano.

A Lei 10.259, de julho de 2001, que criou os juizados especiais federais, transformou o tráfico de animais em “crime de menor potencial ofensivo”, com penas comunitárias alternativas, observa Bechara. Ou seja, o traficante detido não vai preso nem paga fiança, recebe apenas um auto de infração.

“Não só o lucro é maior, mas quem é pego não vai para a cadeia. E os criminosos sabem disso.”

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