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‘Primatas emplumados’ surpreendem cientistas

on abril 2 | em Fauna na Mídia, FIQUE POR DENTRO | by | with No Comments

POR NATALIE ANGIER – The New York Times International Weekly
ABRIL 1, 2016

Folha de São Paulo

 

Os psitacídeos têm dialetos próprios, conseguem fabricar ferramentas e são capazes de fazer cálculos simples. Mauricio Lima/Agence France ­— Presse/Getty Images

Os psitacídeos têm dialetos próprios, conseguem fabricar ferramentas e são capazes de fazer cálculos simples.
Mauricio Lima/Agence France ­— Presse/Getty Images

 

Juan Masello nunca teve a intenção de estudar psitacídeos. Há 20 anos, quando era pós-graduando, fez uma viagem à Patagônia com a intenção de preparar uma tese sobre aves marinhas.

No entanto, quando ele perguntou onde estavam os bandos de cormorões e petréis, um guarda florestal respondeu que Masello estava sem sorte. “Ele me disse: ‘Esta é a única parte da Patagônia sem colônias de aves marinhas’”, contou Masello, hoje pesquisador de sistemática e ecologia animal da Universidade Justus Liebig, na Alemanha.

Será que, em vez disso, o jovem cientista não estaria interessado em ver uma grande colônia de uma espécie de periquito?

Numa falésia de arenito com 50 metros de altura, que se estende por cerca de 10 km pela costa do Atlântico, dezenas de milhares de casais de ararinhas da Patagônia haviam perfurado profundos buracos na pedra para servirem de ninhos. Pouco depois, quando a temporada da reprodução começou, o céu explodiu num ruidoso festival: 150 mil seres voadores multicoloridos, do tamanho de corvos, com as costas verde-escuras, asas turquesa, manchas brancas sobre as asas e penugem vermelha na barriga.

Hoje Masello é parte de um pequeno círculo de pesquisadores que estudam as aves psitaciformes, uma ordem que inclui papagaios, periquitos, araras e cacatuas. Apesar de serem visualmente chamativos, os papagaios e seus primos costumam ser preteridos pelos cientistas, que preferem estudar outras aves.

“Nós nos referimos a eles como primatas emplumados”, disse Irene Pepperberg, que pesquisa cognição animal na Universidade Harvard e é conhecida por seu trabalho com um famoso papagaio chamado Alex e outros papagaios-cinzentos.

Muitas das descobertas foram descritas em um novo livro, “Parrots of the Wild: A Natural History of the World’s Most Captivating Birds” [Papagaios selvagens: uma história natural das aves mais cativantes do mundo], de Catherine A. Toft e Timothy F. Wright. Estudando o papagaio da espécie Amazona auropalliata, nativo da Costa Rica, Wright e seus colegas descobriram que diferentes populações de papagaios se comunicam em dialetos diferentes entre si, os quais se mantêm estáveis ao longo de décadas, como as línguas humanas.

Uma recente análise do DNA mostrou que os psitaciformes são muito aparentados aos falcões. Os falcões são predadores no sentido convencional, mas os psitaciformes não são menos sanguinários no seu ataque às plantas. “Um papagaio é um carnívoro das plantas”, disse Wright. “Ele destrói a semente. Vai direto à fruta e come o filhote da planta.”

A musculosa mandíbula dos psitaciformes e seu bico conseguem abrir qualquer casca, até as mais duras.

Para destruir as sementes, é preciso também ser capaz de resistir às substâncias químicas contidas nas plantas. A dieta difícil provavelmente resultou, por seleção natural, em animais com constituição robusta, sistema imunológico excelente e bons sistemas de reparação do DNA. Além disso, as toxinas ingeridas também podem ter efeitos antimicrobianos e antiparasitários.

Psitaciformes podem viver 50 anos ou mais: o recordista entre as cacatuas-das-molucas, por exemplo, está com 92, e um papagaio-mocho, se tiver sorte, chega aos 120.

Porém, o maior efeito evolutivo da caça por sementes pode ter sido psicossocial. Os psitaciformes costumam voar muitos quilômetros por dia atrás de alimentos. A busca coletiva é mais eficiente que a solitária.

“Isso pode significar o desenvolvimento de um sistema social, bem como a capacidade neurológica de compartilhar informações”, disse Leo Joseph, especialista em psitaciformes.

Os pesquisadores ainda estão observando a inteligência dos psitaciformes. Pepperberg e seus colaboradores já demonstraram que os papagaios-cinzentos têm excepcionais habilidades numéricas: Alex era capaz de deduzir a ordem correta dos números até oito, somar três números baixos e até compreender o conceito de zero — “competências equivalentes às de uma criança de quatro anos e meio”, segundo ela.

E, numa engenhosidade que a estudiosa Alice Auersperg, da Universidade de Viena, descreve como “sensacional” em se tratando de um animal não conhecido por usar ferramentas na natureza, uma cacatua-de-goffin chamada Figaro um dia começou a lascar a borda de uma moldura de madeira até obter uma vara longa e fina, que usou para alcançar sementes escondidas sob caixas.

“Ele levou 20 minutos para fazer a sua primeira ferramenta”, disse Auersperg. “Depois disso, ele conseguia fazê-la em menos de cinco minutos.”

Outras cacatuas logo começaram a lascar madeira.

Figaro não parou por aí. Rapidamente passou a usar as varetas para desenhar na areia, segundo Auersperg. Sim, as cacatuas também rabiscam.

 

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