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Reprodução da ararinha-azul em cativeiro é conquista histórica

on dezembro 28 | em Fauna na Mídia, FIQUE POR DENTRO | by | with No Comments

23/12/2014
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio

 

Com a chegada dos filhotes, a equipe do criadouro Nest tem agora 11 ararinhas-azuis sob seus cuidados. Divulgação/ICMBio

Com a chegada dos filhotes, a equipe do criadouro Nest tem agora 11 ararinhas-azuis sob seus cuidados.
Divulgação/ICMBio

 

Brasília (23/12/2014) — No espaço em meio à natureza, com o ar puro e a tranquilidade que só os recantos do interior do país podem oferecer, a infraestrutura impressiona: laboratório, centro cirúrgico e unidades de tratamento com tecnologia de ponta. Tudo isso para acolher e cuidar de um grupo muito especial da nossa fauna: as aves.

Fundado há quatro anos no interior de São Paulo, o criadouro científico Nest abriga pássaros de diversas origens, cores e gorjeios. No entanto, mesmo rodeada por várias aves exuberantes, uma espécie nativa atrai todos os olhares de quem passa por ali. Trata-se da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), ave que foi símbolo da extinção anos atrás e hoje conta com apenas 92 exemplares, todos em cativeiro.

Vítima do tráfico de animais, a ararinha-azul desapareceu do seu habitat, a Caatinga brasileira, sendo considerada extinta na natureza desde o ano 2000. Mas o futuro da espécie ganhou ares de esperança no último mês de outubro, com o nascimento de dois filhotes no criadouro Nest. O acontecimento é um marco histórico para o nosso país, que há 14 anos não reproduzia a ararinha-azul em cativeiro.

Com a chegada dos filhotes, a equipe do Nest tem agora 11 ararinhas-azuis sob seus cuidados. Os demais exemplares encontram-se nos criadouros Al-Wabra Wildlife Preservation (Catar) e Association for the Conservation of Threatened Parrots – ACTP (Alemanha). Trabalhando de forma coordenada, as instituições lidam com os 92 indivíduos como uma população única. Todo esse esforço faz parte da realização do Projeto Ararinha na Natureza.

Os filhotes

Com dois meses de vida, os filhotes vêm apresentando um desenvolvimento bastante satisfatório. Nasceram com apenas 15 gramas e agora já chegam a cerca de 350 gramas, pouco mais que o peso de um adulto. De acordo com o veterinário do Nest, Ramiro Dias, é normal que os filhotes ganhem mais peso nessa fase e que depois haja uma perda. “Na idade adulta, a estrutura muscular se modifica e o peso se estabiliza em aproximadamente 340 gramas”, esclareceu.

Depois de passar quase 40 dias com os pais, Flor e Blu, os filhotes foram transferidas para uma Unidade de Tratamento Animal (UTA), estrutura semelhante às incubadoras humanas. Uma medida preventiva, pois a mãe estava arrancando as penas das cabeças dos filhotes.

Os filhotes nasceram há aproximadamente dois meses, pesando cerca de 15 gramas, mas já ganharam peso e penas. Foto: Eny Miranda - Divulgação

Os filhotes nasceram há aproximadamente dois meses, pesando cerca de 15 gramas, mas já ganharam peso e penas.
Foto: Eny Miranda – Divulgação

 

Agora, em ambiente artificial, o trabalho de monitoramento é ainda mais minucioso. A umidade do ar é regulada em 70% e o ajuste da temperatura fica entre 27 e 30 graus. A alimentação, inicialmente feita de forma natural pelos próprios pais (que regurgitam o alimento para a cria), passou para as mãos cuidadosas da tratadora Juliana Leme. A ração é diluída em água e colocada diretamente no bico dos filhotes com uma seringa.

Juliana repete o mesmo ritual quatro vezes por dia: alimentação (com direito a guardanapo para limpar os excessos que insistem em sujar o bico dos recém-nascidos) e pesagem, feita antes e depois da refeição. A tratadora conta que os filhotes dormem bastante, mas ficam curiosos e se agitam quando há pessoas por perto. Para Juliana, a delicadeza e o carinho dedicados às ararinhas têm suas recompensas: “É muito bom estar tão perto e poder cuidar desses filhotes. Me sinto privilegiada”, declarou.

A reprodução em cativeiro

O processo de reprodução das ararinhas foi natural, com poucas intervenções humanas. Flor e Blu copularam espontaneamente. A postura dos ovos, três no total, ocorreu entre os dias 29 de setembro e 3 de outubro. O veterinário Ramiro Dias relata que a partir de 5 de outubro começaram a ser feitas as ovoscopias – exame que verifica se existe embrião se desenvolvendo no ovo – quando foi possível constatar a presença de dois ovos férteis e um infértil.

Antes dessa, o casal já havia feito três posturas, todas inférteis. “Recebemos a notícia com muita alegria e entusiasmo, mas logo em seguida já começamos a avaliar os próximos passos. A reprodução em cativeiro é uma grande responsabilidade, cada decisão é muito bem pensada”, ponderou Ramiro.

O casal Blue e Flor são os pais dos filhotes nascidos no Brasil. Foto: Eny Miranda/Divulgação

O casal Blue e Flor são os pais dos filhotes nascidos no Brasil.
Foto: Eny Miranda/Divulgação

 

A tão esperada eclosão dos ovos ocorreu, também de forma natural, nos dias 25 e 27 de outubro. Segundo o veterinário, a equipe optou pelos métodos naturais para poder observar o comportamento do casal e dos filhotes e se preparar melhor para a criação artificial. “Estamos nos estruturando para receber as próximas ararinhas com criação artificial, visando aumentar a quantidade de filhotes por ano”.

O especialista em reprodução de aves da Universidade de São Paulo (USP) e consultor do Projeto Ararinha na Natureza, Ricardo Pereira, explica que a presença de ovos e filhotes inibe o ciclo reprodutivo do casal. Assim, o método artificial tem como objetivo retirar os ovos para tentar aproveitar o período de reprodução, aumentando a quantidade de posturas. “Com ovos e filhotes por perto, o testículo e o ovário regridem”, pontuou o especialista.

“Quando ocorreu a última reprodução em cativeiro no Brasil, há 14 anos, foi um evento isolado, já que não existia um manejo contínuo voltado para isso. O nascimento desses filhotes é emblemático e dá sentido a todo o esforço feito nos últimos anos, pois traz esperança para a espécie e indica que estamos no caminho certo”, concluiu Pereira.

Perspectivas

A expectativa dos envolvidos no projeto é que a reprodução da ararinha-azul em cativeiro deslanche a partir de 2015. Além de Flor e Blu, o casal Caipora e Yara, formado em março deste ano, deve pôr ovos em breve. Há expectativa também em torno de duas fêmeas, Mela e Turquesa, que estão gerando ovos inférteis. A ideia é que elas passem a gerar ovos férteis com a utilização da inseminação artificial.

Os desafios, por sua vez, são enormes. Um deles é justamente a menor quantidade de machos: no Nest são apenas dois machos para sete fêmeas (o sexo dos filhotes só será conhecido após o resultado da análise genética); enquanto o total mundial é de 34 machos e 51 fêmeas.

A pouca variedade genética das ararinhas-azuis, ocasionada pela redução da população, também é um obstáculo para o projeto. “As aves apresentam em média de 300 milhões a 9 bilhões de espermatozoides por mililitro de sêmen, mas na ararinha-azul encontramos apenas 3 milhões. Além da concentração baixa, muitos espermatozoides são defeituosos”, ressaltou Ricardo Pereira.

Para minimizar o problema, são feitos mapeamentos genéticos e permutas de ararinhas entre os criadouros, buscando a ampliação da diversidade genética. Segundo o especialista, a equipe está motivada e já pensa em novas técnicas para o futuro, a exemplo do transplante de células testiculares, que permitiria a um indivíduo ejacular o sêmen de outro.

 

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