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Revista Família Cristã – O Brasil paga o mico

on janeiro 11 | em FIQUE POR DENTRO, Renctas na Mídia | by | with No Comments

Fúlvio Giannella Júnior

O tráfico de fauna silvestre tem no Brasil um importante centro de
contrabando de animais.

Os primeiros registros do envio de animais silvestres brasileiros para outros países se confundem com a chegada dos portugueses ao Brasil. Na nau que levou ao rei de Portugal a carta de Pero Vaz de Caminha anunciando a descoberta da nova terra seguiram também araras, papagaios e outros espécimes que fascinaram os colonizadores europeus e se tornaram alvo de cobiça. Mas desse interesse inicial, limitado à curiosidade por animais exóticos tidos como objeto de estimação e símbolo de status, desenvolveu-se uma atividade comercial ilegal, extremamente lucrativa e predatória, que movimenta hoje bilhões de dólares e representa uma grave ameaça à biodiversidade nacional.

O problema, contudo, não atinge apenas o Brasil. No tráfico de vida silvestre, que inclui a fauna, a flora e seus produtos e subprodutos, os países em desenvolvimento são os maiores fornecedores de espécimes que acabam alimentando indústrias, centros de pesquisa e até zoológicos de países como Estados Unidos (maior consumidor de vida silvestre do mundo), Alemanha, Holanda, França, Inglaterra e Japão, principais receptores desse contrabando.

Os valores envolvidos nessas transações atingem patamares astronômicos, dependendo da utilidade e raridade das espécies comercializadas, e transformaram o tráfico de vida silvestre na terceira maior atividade ilegal do mundo, atrás apenas dos tráficos de armas e drogas. Por seu caráter clandestino, é difícil saber a real dimensão desse comércio. Estima-se que movimente anualmente, no mundo, de 10 a 20 bilhões de dólares, sendo que o Brasil responderia com 5% a 15% do total.

Iniciativa pioneira – Esses dados constam do 1o Relatório Nacional sobre o Tráfico de Fauna Silvestre organizado pela Renctas (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres), uma organização não-governamental que tem entre seus objetivos articular o setor público, a iniciativa privada e a sociedade civil organizada para elaborar ações e estratégias contra o comércio ilegal da fauna brasileira (veja box abaixo). A coleta detalhada de dados sobre essa atividade é um fato inédito, pois, até hoje, apesar de se saber que a comercialização ilegal de animais silvestres, no País, apresentava dimensões preocupantes, não havia nenhum documento confiável que medisse o tamanho do estrago. Graças ao trabalho de técnicos e voluntários da Renctas, que contou ainda com o apoio do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), da Polícia Federal e de vários órgãos estaduais ligados à questão do meio ambiente, conseguiu-se chegar a uma primeira radiografia do problema. “Após um ano de pesquisa, recolhemos quase 16 mil páginas de documentos que foram exaustivamente analisadas e checadas antes de serem incluídas no relatório” – informa Denner Giovanini, coordenador-geral da Renctas.

As informações e os números resultantes de todo esse trabalho são alarmantes. Com base nos dados do Ibama sobre apreensões de fauna silvestre, a Renctas realizou uma projeção estatística na qual concluiu que, anualmente, o tráfico é responsável pela retirada de 38 milhões de espécimes das florestas brasileiras. Esse montante é bem maior do que os 4 milhões de animais comercializados ilegalmente todos os anos no País, devido às perdas ocorridas em seu processo de captura, transporte e venda. Calcula-se que de cada dez animais contrabandeados apenas um chegue vivo ao seu destino em decorrência dos métodos cruéis de transporte utilizados pelos traficantes. “Além do mais muitos deles, ao serem pegos em flagrante, não hesitam em matar sua mercadoria numa afronta à fiscalização ou por perversidade, apenas para impedir que os animais sejam recolhidos vivos” – afirma Denner.

Com base nos preços atribuídos a cada espécie, o relatório aponta que essa atividade movimenta 2,5 bilhões de reais por ano, no Brasil, sendo que a maioria dos animais contrabandeados é proveniente das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Diversas cidades brasileiras ganharam fama como fornecedoras de fauna silvestre para o comércio ilegal, entre elas Milagres (BA), Feira de Santana (BA), Belém (PA), Cuiabá (MT), Recife (PE) e Santarém (PA). Nesses centros, os animais são vendidos em ruas, lojas, beira de estrada ou enviados para as regiões Sul e Sudeste.

Altos lucros – Os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo estão entre os principais pontos de destino desses animais, que acabam vendidos em feiras livres ou exportados por meio dos principais portos e aeroportos dessa região. Atualmente só no Rio de Janeiro existem cerca de cem feiras livres, onde são comercializados animais ilegalmente. “A permanência dessas feiras encoraja o comércio ilegal, pois demonstra impunidade, além de facilitar a posse, também ilegal, de animais por parte da sociedade” – critica o coordenador-geral da Renctas, lembrando que isso ocorre por problemas com a fiscalização e falhas na legislação que trata da proteção da fauna nacional.

Apesar de reverenciar os esforços do Ibama e da Polícia Federal no combate ao tráfico, Denner Giovanini lembra que existem problemas estruturais difíceis de serem superados e que não se limitam à deficiência de pessoal. “Não há locais adequados em número suficiente para encaminhar os animais apreendidos nas blitze. Essa falta de centros de triagem leva muitas vezes os policiais a afrouxarem a fiscalização por não terem para onde enviar os bichos” – lembra.

Quanto às lacunas na legislação, um dos problemas apontados para a aplicação efetiva da lei é a não-diferenciação entre o pequeno e o grande traficante. “Hoje uma senhora que é pega com um papagaio em casa é enquadrada na mesma categoria de quem é apreendido despachando 600 araras-azuis para o exterior, isso faz com que se afrouxe a aplicação da lei e que ninguém acabe na cadeia por esse crime” – afirma Denner. Quando muito os traficantes pegos em flagrante são obrigados a pagar uma fiança que não chega a 200 reais e, se condenados, cumprem penas alternativas como doação de algumas cestas básicas ou prestação de serviços comunitários por um curto período de tempo. “Isso faz desse comércio uma atividade bastante compensadora em termos financeiros” – garante o coordenador da Renctas.

As cifras apresentadas no relatório comprovam isso. No Brasil, segundo o levantamento, o tráfico de animais silvestres possui características peculiares quanto às espécies traficadas e ao destino que têm ao chegar nos mercados internacionais. Uma das modalidades é vender os animais a colecionadores particulares ou zoológicos, vertente desse comércio em que as espécies mais procuradas são as mais raras, ameaçadas de extinção. Nesse mercado, o valor de uma arara-azul-de-lear chega a 60 mil dólares.

Um segundo tipo de contrabando é a biopirataria, voltado para animais que fornecem substâncias químicas para a pesquisa e produção de medicamentos. Cobras, sapos, aranhas, besouros e vespas são as espécies mais procuradas. Nesse caso, um grama do veneno extraído de uma cobra-coral pode render até 31.300 dólares aos traficantes.

O terceiro tipo mais comum de tráfico de animais silvestres refere-se ao uso deles como bichos de estimação. A jibóia, considerada nos Estados Unidos a cobra mais popular para tal fim, tem um valor que varia de 800 a 1.500 dólares. Já um sagüi-da-cara-branca, por ser mais raro, atinge 5 mil dólares.

Exploração dupla – Quem pensa que todo esse dinheiro é embolsado por aqueles que retiram os animais da floresta está enganado. No esquema do tráfico de animais silvestres, os chamados fornecedores – pessoas recrutadas para caçar os bichos na mata e passá-los aos intermediários do tráfico – recebem valores irrisórios por seu trabalho. “Os preços pagos são de 3 centavos de real por borboleta, 1 real por passarinho, 2 reais por papagaio” – informa Denner.

Por serem muito pobres, essas pessoas vêem nesse comércio uma fonte complementar de renda, mesmo que os valores obtidos não modifiquem em nada a situação de miséria em que se encontram. “Essa população não tem noção de que os recursos naturais são finitos e suas condições de vida ficarão ainda piores ao destruir a biodiversidade” – pondera o coordenador da Renctas. A exploração predatória da fauna leva não apenas à diminuição da capacidade de reposição natural das espécies animais e a um desequilíbrio do ecossistema, como também ao empobrecimento da camada florestal, já que muitos bichos e insetos têm um papel importante na dispersão de sementes e renovação das matas.

“A Renctas sabe que o combate ao tráfico de animais silvestres passa pela conscientização de toda a sociedade para o problema, pela disponibilidade de informações e pela organização dos órgãos de controle ambiental. Daí a importância desse relatório pioneiro” – acredita Denner Giovanini. Mas, como ele mesmo admite, isso não basta. É necessário também oferecer alternativas a essas populações mais pobres que hoje procuram nesse comércio ilegal uma forma, mesmo que precária, de sobrevivência. “Estamos estudando projetos nos quais essas populações possam, através de cooperativas, criar animais silvestres em cativeiro, sob orientação da Renctas e controle do Ibama” – afirma Denner. Entre as condições para permitir a construção desses criadouros estaria o compromisso de, segundo estudos de impacto ambiental, devolver parte dos animais nascidos em cativeiro a seu hábitat.

É uma idéia dentro de um projeto que tem como objetivo a construção de uma sociedade que respeite seus recursos naturais. Felizmente o relatório da Renctas é um passo nessa direção. Afinal, o maior patrimônio brasileiro legado às futuras gerações é a sua biodiversidade.

Em defesa da fauna

Desde seu lançamento oficial, em janeiro de 1999, a Renctas vem estabelecendo parcerias com instituições governamentais e não-governamentais para alcançar seu objetivo de controlar e combater o tráfico de animais silvestres. Campanhas educativas, levantamentos de dados, divulgação de informações através da imprensa, capacitação de agentes de fiscalização ambiental e recebimento de denúncias são algumas das atividades desenvolvidas pela entidade, que conta, em todo o País, com mais de 950 voluntários.

Para obter mais informações sobre o trabalho da Renctas, participar de seus programas ou fazer denúncias envolvendo o tráfico de animais silvestres, pode-se acessar o site www.renctas.org.br, enviar mensagens para o e-mail renctas@renctas.org.br ou ligar para (61) 368-8970.

Animais fertilizam as florestas
Ana Maria Fiori

Aves, roedores e outros bichos carregam sementes de árvores e arbustos
até os lugares onde elas vão germinar e crescer.

Um dos problemas que atinge o planeta como um todo é a perda da biodiversidade, provocada por ataques ao meio ambiente, como desmatamentos, caçadas e tráfico de animais silvestres. Muitas plantas dependem dos animais para sua sobrevivência e, sem os bichos para dispersar sementes, a flora fica ainda mais ameaçada. Essa interação entre animais e plantas é tão forte que já existem pesquisadores, no Brasil e no mundo, que se dedicam ao assunto.

O biólogo Mauro Galetti, da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Rio Claro (SP), comenta que há muitos exemplos da relação entre animais e plantas, como a gralha-azul – ave-símbolo do estado do Paraná – e a araucária. No inverno, quando outros alimentos se tornam mais escassos, a gralha-azul alimenta-se quase que exclusivamente dos pinhões, que são as sementes da araucária. Ela voa com o pinhão no bico até outra árvore, onde vai comê-lo. Nesse trajeto, muitas vezes a ave derruba as sementes no solo e elas, ao germinar, renovam os pinheirais.

Em alguns casos, as plantas estão mais bem protegidas porque contam com vários animais para dispersar suas sementes. Já outras árvores encontram-se ameaçadas, pois dependem de um único animal para fazer esse trabalho. Pior para elas, quando o animal é alvo de caçadores. Aí fecha-se um ciclo de destruição.

É o que acontece com o jatobá, que tem apenas na cutia uma aliada para espalhar suas sementes longe da planta-mãe, onde elas não precisam competir pela luz e têm mais condições de germinar. Macacos-prego e mono-carvoeiros também procuram as vagens do jatobá, mas retiram a polpa e jogam fora as sementes. A cutia, alvo da caça em diversas cidades do interior do estado de São Paulo, é o único animal que carrega as sementes para longe do jatobá, seja para abri-las num local mais protegido, seja para estocar alimento para o futuro. Nesse processo, algumas sementes enterradas encontram condições favoráveis para germinar.

Cenário sem atores – O pesquisador afirma que a caça é um risco para as florestas. “Nós estimamos que anualmente 60 milhões de animais são mortos na Amazônia brasileira. Como a maioria desses animais é importante dispersora de sementes, a floresta está perdendo o equilíbrio” – alerta.

Além da caça, Mauro Galetti diz que a exploração sem critério de sementes comidas pelos bichos ameaça as matas brasileiras de desaparecimento. É o caso da extração indiscriminada de castanhas-do-pará e palmito-juçara. O biólogo diz que o ser humano corta o palmito-juçara para extrair somente 30 centímetros da planta, enquanto mais de 30 espécies de aves e 15 de mamíferos necessitam dos frutos do juçara para viver. E ainda avisa: “A destruição do palmito-juçara pode acarretar diversas extinções animais”.

Vale lembrar que pequenos seres vivos, como ervas e passarinhos, também fazem parte do ciclo de relações que mantém viva a floresta. Um grupo de pássaros de cores vivas – os gaturamos – é o único dispersor das sementes de ervas-de-passarinho, que parasitam árvores como o ipê, sem matar seu hospedeiro. Os gaturamos comem os frutos das ervas-de-passarinho e levam, em suas fezes, as sementes desses arbustos até o tronco das árvores hospedeiras.

Outra estratégia de dispersão, bastante rara na natureza, é a utilizada pelo olho-de-cabra ou tento, e também pelo olho-de-cabra-miúdo. O olho-de-cabra tem sementes com duas cores – vermelha e preta –, muito atrativas para as aves. A parte preta da semente se parece com a semente de qualquer outro fruto, mas onde a cor vermelha se destaca, a ave, iludida, pensa que vai encontrar a polpa do fruto. O truque funciona, pelo menos uma vez. Quando a ave percebe o engano, ou já engoliu ou regurgitou a semente, que depois poderá germinar.

Mauro Galetti acredita que toda essa dinâmica da floresta tem de ser respeitada, senão no futuro teremos algo como um cenário sem atores. Ele diz que a floresta brasileira, principalmente a Mata Atlântica, está se tornando uma floresta vazia. Quando se chega a tal desequilíbrio no meio ambiente, é muito difícil reequilibrá-lo e, para tanto, seria necessário o manejo contínuo dos fragmentos florestais.

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