Além de queimadas e desmatamento, onças sofrem com tráfico de suas partes

Demanda internacional por partes de onças têm crescido em países amazônicos. No Brasil, comércio ainda é regional, mas situação pode mudar com a destruição do bioma.

Onça-pintada come um jacaré no Pantanal Sul-matogrossense. Pesquisadores alertam para um dano adicional causado pelo avanço ...
Onça-pintada come um jacaré no Pantanal Sul-matogrossense. Pesquisadores alertam para um dano adicional causado pelo avanço do desmatamento na Amazônia brasileira: o tráfico de partes de onça.
FOTO DE STEVE WINTER

Em agosto de 2016, seis cabeças de onças foram encontradas em um freezer e apreendidas em uma operação de busca da Polícia Militar do Pará, no município de Curionópolis. Juntos estavam crânios, peles e patas de um total de 19 felinos, além de partes de outros animais silvestres e aves.

O crime repercutiu na imprensa de todo o país e chamou a atenção para uma prática até hoje pouco discutida no Brasil: o tráfico de biodiversidade.

Um estudo publicado pela revista científica Conservation Biology revelou novos dados sobre a comercialização ilegal de vida selvagem e seus subprodutos. O trabalho liderado pela bióloga e pesquisadora brasileira Thais Morcatty, do Grupo de Pesquisa sobre Venda de Animais Silvestres, da Universidade Oxford Brookes, no Reino Unido, é a primeira base de dados sobre tráfico de partes de onças e outros felinos na América Latina. Morcatty levantou registros jornalísticos e de órgãos oficiais sobre apreensões de felinos desde 2012, quando começaram os primeiros relatos de pesquisadores que passaram a encontrar carcaças de onças sem a cabeça ou sem as patas na Bolívia e Suriname.

A pesquisadora cruzou as informações obtidas até 2018 com fatores que podem contribuir para a comercialização ilegal dos animais, como pobreza e índices de corrupção de cada país analisado. O resultado foi uma possível relação do tráfico de partes de onças com a presença de grandes investimentos chineses recentes – em sua maioria, obras de infraestrutura como estradas e barragens.

Uma das variáveis que entraram no modelo da pesquisa foi a área atual de distribuição de onças. No levantamento, o Brasil aparece com o maior número de animais apreendidos e o maior número de operações contra o tráfico. Apesar de alarmante, o resultado era esperado, já que o país abriga quase 70% da área de ocorrência de onças do planeta. “Pensando em questões de probabilidade, do tamanho da área, o Brasil tinha mesmo que estar entre os primeiros, caso exista, de fato, uma questão de exploração ilegal das onças”, avalia Morcatty.

A pesquisadora explica que, embora tenha o maior número de registros, os dados revelam uma das menores proporções direcionadas para a China. “Não dá para bater o martelo, claro, porque nem todos os registros [permitiram] precisar se iriam para a China ou não. Isso pode ser porque, apesar da área imensa, grande parte é muito preservada, um bloco de floresta”, explica Morcatty.

Cebeça de onça é vendida em mercado de Iquitos, no Peru. Pesquisadores dizem que o mercado ...
Cabeça de onça é vendida em mercado de Iquitos, no Peru. Pesquisadores dizem que o mercado de partes de onça-pintada ainda é regional no Brasil, mas o avanço do desmatamento e a consequente facilitação do acesso à floresta podem incentivar o tráfico internacional.
FOTO DE STEVE WINTER

Para ela, a questão tem a ver com a existência de um mercado doméstico, abastecido, em grande parte, por animais abatidos em conflitos com o homem. Itens como peles e dentes são utilizados em artesanatos ou enfeites para a casa.

“É algo bem regional. Claro que a gente tem que pensar que, se a Amazônia não for protegida, a tendência é que o mercado internacional avance”, alerta a pesquisadora. “Se outros países em que ele já existe mais forte, como a Bolívia, responderem com políticas de combate ao tráfico, ou se a população de onças simplesmente declinar demais, a tendência será ir para aqueles países com mais onças.”

De acordo com o estudo, os países amazônicos com florestas mais fragmentadas têm menos felinos. No entanto, os empreendimentos que estimulam o fluxo de pessoas em áreas de mata – implantação de rodovias e ferrovias, por exemplo – acabam facilitando a exploração e venda de onças e outros itens de vida silvestre. “No Brasil, estamos caminhando para esse cenário, com o nível de desmatamento voltando a aumentar, mas ainda há uma área considerável de floresta”, diz Morcatty. “Então, a recomendação seria justamente manter essa falta de acesso e evitar ao máximo a fragmentação, porque isso favorece não só a sobrevivência das populações de animais, mas também impede o acesso de pessoas que vão estimular a comércio ilegal.”

O geógrafo Carlos Durigan, diretor da Wildlife Conservation Society (WCS) no Brasil e coautor do estudo, conta que, nos últimos anos, os pesquisadores têm percebido um aumento significativo de apreensões de partes de animais como cabeças, patas e ossos.  “Nós começamos a cruzar as informações e vimos uma correlação importante dessa questão da diminuição da espécie em algumas áreas com apreensões cada vez mais frequentes e nas mesmas condições dessas partes de animais”, diz Durigan. “Então, a preocupação tem sido crescente porque é basicamente na Amazônia que se encontra a maior população de onças.”

Ele explica que, diferentemente de outras ameaças como a perda de habitat e conflitos com fazendeiros, o tráfico pode colocar um valor mercadológico na onça-pintada, o que estimularia a procura pelo animal.

Segundo Durigan, já existe gente ativamente buscando onças na Amazônia brasileira há pelo menos dois ou três anos. “Outro fato que chama a atenção é a informação passada, não abertamente, entre as pessoas de que há valor na onça”, diz ele, que cita o caso inusitado de um animal atropelado para exemplificar. “Um dia a onça estava lá, morta e atropelada; alguém fez o registro e, no dia seguinte, o corpo da onça estava sem as patas e a cabeça.”

onca come boi no pantanal
Onça preda um boi no Pantanal matogrossense. A presença do gado, muitas vezes levada junto com o avanço do desmatamento, é um fator que agrava o conflito com onças-pintadas, que acabam mortas em retaliação ou para prevenir o abate de animais de corte.
FOTO DE STEVE WINTER

Levantamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional em parceria com a ONG Traffic analisou dados de tráfico de vida selvagem na região amazônica brasileira entre 2012 e 2019. O relatório – que considerou diversas espécies, entre elas a onça-pintada – alerta para a necessidade de uma base de dados sólida, que forneça a real dimensão da atividade e, assim, permita pensar em planos nacionais e transfronteiriços.

“É importante entendermos que o estudo mostra o que está sendo detectado, e não o que é traficado propriamente dito”, destaca a bióloga Juliana M. Ferreira, uma das coautoras do documento, diretora-executiva da Freeland Brasil e exploradora da National Geographic.

A pesquisa revela que a caça furtiva de onças para revenda de suas partes tem crescido nos últimos anos, aparentemente impulsionada pela demanda do mercado na Ásia. Investigações recentes sobre o tráfico de onças-pintadas no Brasil descobriram ao menos 30 apreensões de partes de onças, principalmente peles, nos últimos cinco anos. Para as pesquisadoras, o número representa apenas uma fração dos incidentes de caça ilegal no país. A veterinária Sandra Charity, outra coautora, alerta: “A gente vê um risco desse mercado ilegal de partes de onça explodir.”

Juliana Ferreira chama a atenção para relações entre o tráfico de espécies silvestres e prejuízos econômicos para o país. A retirada de animais de forma irregular e em grande volume dos ecossistemas brasileiros afeta não só o equilíbrio ambiental, mas os serviços ambientais oferecidos pela fauna, como a polinização, controle de pragas e manutenção dos cursos d’água. O tráfico ilegal de vida silvestre também é acompanhado de outros crimes danosos aos cofres públicos e ao bem-estar social, como corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, fraude e falsificação de documentos públicos e exploração de pessoas em situação de vulnerabilidade social. Além disso, “é preciso todo um aparato governamental para fiscalizar, apreender, cuidar dos animais do tráfico e reabilitá-los, ou seja, investir para consertar os impactos desse crime”, diz a pesquisadora. “É um grande vazamento de recursos da sociedade em diferentes níveis.”

Para combater o problema, os pesquisadores propõe capacitar agentes de órgãos ambientais, promover a cooperação entre os países e a fiscalização em regiões de fronteira e criar uma rede federal de inteligência para levantar pontos de caça com uma plataforma de dados. Além disso, destacam a importância de soluções que integrem agricultura sustentável e manutenção do habitat e de um trabalho contínuo com comunidades locais para conscientizar a população e enfraquecer o mercado consumidor.

Quase dizimadas na década de 1960

Essa não é a primeira vez que o comércio de partes de onças-pintadas ameaça o maior felino das américas. No início do século 20, uma crise financeira assolou a Amazônia brasileira depois que o látex extraído das seringueiras, principal produto de exportação na época, perdeu competitividade diante do látex produzido na Malásia. Com isso, a comercialização de peles acabou se tornando uma opção de renda para imigrantes e indígenas que ocupavam a região e trabalhavam no ciclo da borracha.

pele de onca mercado de iquitos
Comerciante mostra pele de onça à venda em mercado de Iquitos, no Peru. No Brasil, a venda de animais e suas partes era um montante substancial da economia da Amazônia até o fim da década de 1960. Estima-se que, de 1904 a 1969, cerca de 23 milhões de animais foram abatidos para suprir o mercado internacional.
FOTO DE STEVE WINTER

Entre 1930 e 1960, a comercialização de peles e couros para os Estados Unidos e a Europa praticamente sustentou a Amazônia, principalmente a porção ocidental. Os números assustam: no período de 1904 a 1969, cerca de 23 milhões de animais silvestres de pelo menos 20 espécies foram caçados para suprir o mercado internacional. Desse total, quase 14 milhões eram vertebrados terrestres, entre eles a onça-pintada e outros felinos, como jaguatirica e gato-maracajá. Nesse período, mais de 180 mil onças foram abatidas, com um pico superior a 9 mil indivíduos no ano de 1938. A atividade começou a perder força no Brasil só a partir de 1967, com a instituição da lei 5.197, que dispõe sobre a proteção da fauna. Ainda assim, mesmo após dois anos da proibição da caça, em 1969, cerca de 8 mil onças foram mortas, o segundo ano com maior quantidade de indivíduos abatidos. Esses números ainda podem estar subestimados, já que o levantamento foi realizado com base em registros comerciais e portuários da época, quando parte da atividade de caça não era declarada, sobretudo depois do aumento de impostos sobre artigos de luxo, na década de 1960.

Hoje, animais silvestres em todo território nacional estão novamente sob o risco da caça, agora em um cenário ainda mais hostil para a biodiversidade, considerando os altos índices de desmatamento, de mineração, obras de infraestrutura, expansão das fronteiras agrícolas e efeitos das mudanças climáticas.

A relação entre comércio ilegal de onças e desmatamento também foi identificado em estudo publicado em março deste ano no periódico Frontiers in Ecology and the Environment. Fernando R. Tortato, pesquisador associado à ONG Panthera e coautor do artigo, aponta três tipos de ameaça às onças em decorrência do desmatamento. Primeiro, a dificuldade da espécie em se desenvolver em fragmentos cada vez menores e isolados de floresta. Segundo, o eventual conflito entre criadores de gado, que naturalmente acompanham o avanço do desmatamento, e as onças, que acabam mortas para evitar que predem os animais domesticados. Por último, surge “um valor agregado às partes da onça, seja por dente, pele ou ossos”, diz Tortato. “Essa caça [às onças] fica ainda mais reforçada, e o que poderia ser somente retaliação, vira uma fonte de renda.”

Além disso, a facilidade no acesso a armas e o lobby pela legalização da caça no Congresso podem resultar na ameaça de centenas de espécies. No fim de agosto, 137 ONGs assinaram um ofício, protocolado junto à presidência da Câmara e do Senado, para pedir a aprovação de decretos legislativos que suspendam os efeitos do decreto presidencial nº 9.846/2019, que facilitou a obtenção de registro e aquisição de armas e munições.

Espécie indicadora de saúde ambiental

Por onde passa, o maior felino do continente americano mantém o equilíbrio dos ecossistemas. A onça-pintada é chamada de espécie guarda-chuva, ou seja, diversas outras dependem dela para sobreviver. Com até 150 kg, ela é o terceiro maior felino do mundo e caça praticamente qualquer animal em seu habitat. Como grandes predadoras, garantem o equilíbrio das populações de outras espécies. Além disso, por caminharem vários quilômetros por dia, atuam como jardineiras, dispersando sementes por onde passam. Por tudo isso, esses felinos podem ser considerados indicadores de regiões ambientalmente saudáveis – onde há onças, há preservação.

onca-pintada
Onça-pintada é flagrada depois de predar um porco do mato no Pantanal Sul-matogrossense. Entre os esforços para conservação das onças nas Américas há a criação de corredores ecológicos e até coleta de sêmen para inseminação de indivíduos de diferentes regiões.
FOTO DE STEVE WINTER

“Se você tem uma área de mil, 2 mil, 10 mil hectares de floresta conservada, vai ter onça, mas também terá toda essa comunidade de mamíferos, de aves, toda uma cadeia de relações entre eles”, comenta Durigan. “E tem a importância cultural para muitos povos que as veem como seres com poderes mágicos.”

Tantos atributos deram a ela o título de rainha das Américas. No entanto, somente nas últimas três décadas, o Brasil perdeu mais de 30% das populações de onças-pintadas, e a previsão é que esse número se repita nos próximos 30 anos. Desde o início do século passado, a distribuição geográfica da espécie vem diminuindo drasticamente, e estima-se que cerca de 50% da área de ocorrência já foi perdida.

Embora globalmente ocupe a categoria de ‘espécie quase ameaçada’ de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza, associada a espécies relativamente seguras, essa classificação vai de ‘vulnerável’ a ‘criticamente em perigo’ no Brasil, dependendo do bioma.

Esforços de conservação de norte a sul do país

Diferentes projetos tentam salvar as onças-pintadas. De 2010 até 2017, vigorou, em todos biomas onde ela ocorre, o Plano de Ação Nacional para Conservação (PAN) da Onça-pintada, do ICMBio. A partir de 2018, a onça passou a ser contemplada pelo PAN dos Grandes Felinos.

“Temos trabalhado bastante para a ampliação do conhecimento sobre a biologia da espécie com foco na elaboração de políticas públicas, como a identificação de áreas prioritárias para sua conservação”, conta Ronaldo Morato, veterinário e coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros, órgão vinculado ao ICMBio responsável pelo PAN. Como exemplo, ele aponta a criação, em 2018, do mosaico de unidades de conservação Boqueirão da Onça, na Bahia, e o desenho de outros corredores ecológicos.

Para que as ações sejam colocadas em prática de forma colaborativa, foi criada a Aliança Onça-Pintada, resultado da união de pesquisadores e outros interessados de 16 institutos brasileiros que trabalham com a espécie em variadas iniciativas.

“A gente se juntou para trabalhar em três frentes. Uma delas é gerar conhecimento através de pesquisa, com a coleta de dados para estimar a população de onças numa determinada região ou o estado de conservação da espécie naquela área. Outra linha de trabalho é para reduzir conflitos e, assim, os abates desnecessários, já que as pessoas consideram a onça um risco em potencial, apesar de não existir muitos casos de ataque a humanos”, comenta Durigan. A terceira frente atua “para tentar reduzir a demanda por animais ou por partes deles, que existe e é crescente”.

Instituto Mamirauá, com sede em Tefé (AM), é um dos parceiros da Aliança e atua em estudos de dinâmicas populacionais, ecologia das onças, epidemiologia e mitigação de conflitos. Outro trabalho do instituto é o turismo de observação de base comunitária, como forma de gerar renda para populações locais.

Região com o maior número de onças do mundo, a Amazônia brasileira abriga cerca de 10 mil indivíduos. As onças amazônicas são diferentes das de outros biomas. Além do tamanho – são menores – e da dieta – comem preguiças, por exemplo –, elas apresentam um comportamento peculiar: habitam o topo de árvores durante todo o período das chuvas na floresta, que chega a durar quatro meses. Isso significa caçar, comer e até se reproduzir no alto.

“Isso é um diferencial, um comportamento único das onças da várzea. Apesar de ser um lugar desafiador para se viver, há abundância de presas”, diz Emiliano E. Ramalho, diretor-técnico do Mamirauá. “A ocorrência de onças nas áreas de várzea é das mais altas do mundo; são aproximadamente sete a dez animais a cada 100 quilômetros quadrados.”

Na outra ponta do país, no Paraná, o projeto Onças do Iguaçu, no Parque Nacional do Iguaçu, é um caso de sucesso em um dos últimos fragmentos de Mata Atlântica da região Sul.

Quando foi fundado pelo pesquisador Peter Crawshaw, nos anos 1990, apenas 11 indíviduos foram registrados na região. Crawshaw instalou colares de monitoramento em sete onças – todas foram mortas pouco tempo depois. A população de felinos decaía em ritmo alarmante. Em 2011, restavam dez animais. Com o projeto Carnívoros do Iguaçu e o trabalho intenso da equipe de proteção do parque nacional para coibir a caça, a população dos grandes felinos vem crescendo na última década. O último censo, de 2018, registrou 28 onças no Brasil. Pode parecer pouco, mas é uma vitória para os pesquisadores. Geralmente, onças têm dois filhotes a cada gestação, que dura pouco mais de três meses, e é comum que um deles morra.

Câmeras espalhadas ao longo de todo o parque nacional monitoram os felinos, que se diferenciam pelo padrão de pintas, único em cada indivíduo. A estimativa em toda a região do corredor verde, somando o trecho de reserva na Argentina, é de 105 animais.

O levantamento no Iguaçu abrange uma área de cerca de 600 mil hectares nos dois países. “É o maior esforço de monitoramento de onças do mundo em tamanho de área e anos”, conta Yara Barros, bióloga e coordenadora-executiva do projeto. “Em 2016, a gente tinha 22 onças; no censo de 2018 houve aumento de 27%. É a única população de onças-pintadas que está crescendo na Mata Atlântica.” O próximo censo está marcado para o fim deste ano.

Segundo Yara, o sucesso é resultado de ações de educação ambiental em escolas e conversas com agricultores sobre como agir no caso de encontros com onças. Um dos principais conflitos entre onças e humanos se dá justamente pelo medo que as pessoas têm, o que as leva a abater o felino para se protegerem.

“O projeto tem o objetivo de transformar medo em encantamento, e se isso não for possível, pelo menos tirar o medo da equação”, completa Yara. “A gente trabalha bastante com coexistência; se tem alguma chance de sobrevivência dos grandes felinos no mundo todo, é conseguir uma forma de coexistir com os seres humanos.”

No final de 2018, em um esforço global sem precedentes, as organizações WCS, Panthera, WWF, ONU e governos de 14 países, entre eles o Brasil, se uniram em um projeto para salvar a espécie. O Plano Onça-Pintada 2030 visa fortalecer, por meio da cooperação internacional, o chamado Corredor Jaguar, que vai do México à Argentina, passando pelos 18 países em que a onça está presente, até 2030.

Uma esperança para a conservação

Em habitats muito fragmentados, onças-pintadas acabam isoladas. Sem alternativas de indivíduos para reprodução, o que garantiria a diversidade genética, elas acabam cruzando entre parentes e gerando filhotes menos resistentes. Para tentar mudar esse cenário, um ambicioso projeto vem sendo implementado por pesquisadores: um banco de sêmen de onças.

“Esse isolamento das populações de onça-pintada leva à consanguinidade, o que gera problemas reprodutivos, malformações e abortamentos, que podem culminar na extinção daquela população”, conta Gediendson Ribeiro de Araújo, veterinário da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e diretor-presidente do Centro de Reprodução para a Conservação, responsável pela coleta de sêmen de onças livres e de cativeiro no Pantanal.

Apesar de aparentemente complexa, a reprodução assistida surgiu como uma alternativa a outras iniciativas para conservação da onça. Corredores ecológicos, por exemplo, são inviáveis para populações muito isoladas e leva tempo até os animais começarem a utilizá-los. Já o transporte de indivíduos entre regiões é difícil porque as onças estão ameaçadas em todos os biomas, não havendo uma população com “sobras”. Também contam contra o alto custo de logística e a complicada adaptação a um novo habitat.

“Nesses casos, a reprodução assistida é uma ferramenta importantíssima porque, através de biotecnologias reprodutivas, consegue-se coletar e congelar sêmen de uma população e inseminar em outra sem ter que levar o animal”, explica Araújo.

Para viabilizar o projeto foi preciso desenvolver equipamentos portáteis para o congelamento e transporte do material genético em campo, técnicas de captura de animais em vida livre com laço e metodologias de coleta de sêmen.

“Desde 2016, a gente vem fazendo captura de onça-pintada para congelar esse material genético e, em laboratório, produzir embriões para transferi-los para animais do mesmo bioma, mas de outras áreas”, diz ele. “Por exemplo: inseminar onças do Pantanal Sul com material de animais do Pantanal Norte.”

O projeto já conta com um banco de material genético na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, onde há amostras de 20 indivíduos de cativeiro e cinco de vida livre. Mas aí surge outra questão: onças que vivem presas apresentam material genético de pior qualidade. Estresse por causa do confinamento, recintos mal planejados e alimentação pobre em nutrientes estão entre os problemas. O veterinário chama a atenção para a necessidade de um plano federal de conservação in situ, ou seja, na natureza, de espécies ameaçadas de extinção.

“Hoje, o cativeiro não dá suporte para a conservação in situ. Infelizmente, no Brasil, não há essa política”, diz Araújo. O pesquisador também destaca a importância de instituições com estrutura para manter bancos genéticos vivos que possam servir de apoio aos animais na natureza. “Se acontecer problemas com as populações de vida livre, que a gente consiga fazer revigoramento genético e reintrodução [na natureza].”

Além da reprodução, pesquisadores trabalham na criação de bancos de fibroblastos –células que poderão permitir a clonagem de indivíduos no futuro. “Temos que avançar muito ainda”, diz ele. “Um grande problema é a falta de recursos; mesmo assim, estamos pondo a mão na massa, indo para campo, coletando material e buscando parcerias para desenvolver outros equipamentos.”

Se somos capazes de unir tantos esforços por uma única espécie, talvez possamos sonhar com dias em que a humanidade entenda seu papel de coexistência com outros seres e resgate sua conexão com a natureza.

Fonte: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2020/09/alem-de-queimadas-e-desmatamento-oncas-sofrem-com-trafico-de-suas-partes

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