‘Brasil começa a se destacar como importador de animais exóticos ilegais’

Zoo Brasília/ Divulgação
Zoo Brasília/ Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coordenador da ONG Renctas diz que o País tem participação em torno de 15% do total de US$ 20 bilhões que o tráfico de animais movimenta globalmente a cada ano.

O que a princípio parecia mais um acidente doméstico com animal peçonhento passou a ser um dos assuntos mais comentados neste mês e jogou luz sobre o tráfico de animais silvestres e exóticos no Brasil, uma atividade que possivelmente movimenta cerca de US$ 3 bilhões anualmente, em todo o País.  No dia 7 de julho, um estudante de medicina veterinária de 22 anos, de Brasília (DF), ficou em coma ao ser picado por uma cobra naja, uma das mais venenosas do mundo e que vive em regiões da África e sudoeste asiático. Depois do acidente, outros animais mantidos em criadouros clandestinos vêm sendo revelados. O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) divulgou que desde 8 de julho 32 serpentes foram resgatadas pelo órgão por meio de ações integradas entre policiais equipes ambientais. Também foram descobertos tubarões e lagartos, e houve entregas voluntárias de duas serpentes.

O jovem picado pela naja poderá responder por outras 16 cobras encontradas em um haras, em Planaltina, se confirmada sua participação. Segundo Ibama, o estudante será multado em mais de R$ 61 mil, por maus-tratos e por manter serpentes nativas e exóticos em cativeiro sem autorização.   Traficar e manter animais silvestres presos são crimes ambientais, com pena de detenção (de seis meses a um ano), multa e assinatura de TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência). Já em situações de maus-tratos, a multa pode chegar a R$ 5 mil.

O episódio colocou em alerta entidades como a ONG Renctas, que há 20 anos trabalha para proteger e conservar a biodiversidade brasileira através do combate ao tráfico de animais silvestres. A ONG fica em Brasília e o coordenador-geral, o jornalista Dener Giovanini, atua em causas ambientais há quase 40 anos. Ele explica que o tráfico se caracteriza pela retirada ilegal de um animal da natureza, independente da finalidade. E observa que de cada dez animais nove morrem durante a captura ou no transporte. “É um mercado muito cruel”, afirma.

“Os traficantes tinham injetado álcool ou cachaça na veia de filhotes de macacos para que ficassem bêbados e não chamassem atenção”

 

O caso da cobra naja de Brasília é um fato incomum no Brasil?

Não é comum ter acidentes com espécies peçonhentas exóticas, e talvez, por isso, tenha chamado tanta atenção. Mas não é incomum se ter serpentes em mãos de pessoas que não têm autorização. Essa é uma questão muito preocupante. Por possuir uma das maiores diversidades biológicas do mundo, o Brasil sempre figurou com destaque como exportador ilegal de animais silvestres para o mundo. Porém, de uns cinco anos pra cá, o Brasil tem galgado posições e hoje começa a se destacar como um importador de animais exóticos ilegais, ou seja, que são silvestres em outros países e vêm para o Brasil para serem comercializados. Todo esse processo é ilegal. Esse caso de Brasília preocupa, mas para a Renctas não é nenhuma novidade. Acidentes desse tipo a gente até esperava que acontecesse mais cedo, mas cabe ressaltar que não sabemos se esse é o único acidente com serpente exótica estrangeira. Podem ter ocorrido outros, mas não que chegaram ao nosso conhecimento.

Pelo o que está sendo divulgado, o caso do estudante de Brasília não parece ser amador. Como a Renctas avalia esse episódio?  

Ainda é muito cedo para fazer qualquer tipo de afirmação. Não sabemos exatamente como essa naja chegou nas mãos desse rapaz que foi picado. O que posso dizer é que quem tem uma naja em casa não é uma pessoa desinformada, do tipo que não sabe a espécie de animal que tem. E sabemos que para comprar e manter esse animal não é muito simples, como é o caso de outras cobras não peçonhentas e que também envolve um tráfico gigantesco. Acho que esse jovem tem, no mínimo, muita informação a prestar sobre como essa naja chegou às mãos dele. Provavelmente, esse animal entrou ilegalmente no Brasil ou foi reproduzido aqui, pois muitos traficantes importam casais com um único objetivo de reproduzir e vender os filhotes. Independentemente da situação, ambas são criminosas e com certeza esse jovem tem como apresentar para as autoridades todos os dados que possam levar ao traficante que comercializou a serpente. Acredito que se as investigações se aprofundarem, temos uma grande possibilidade de chegarmos a um esquema grande de tráfico de animais.

Quais são os números do tráfico de animais no Brasil?

O tráfico de animais silvestres é considerada a terceira maior atividade ilegal no mundo, perdendo apenas para o tráfico de armas e de drogas, respectivamente. Segundo as Nações Unidas, o tráfico de animais movimenta cerca de US$ 20 bilhões globalmente e o Brasil participaria desse mercado com algo entre 10% a 15% de todo esse volume de dinheiro, o que daria em torno de US$ 3 bilhões. Os dados que temos disponíveis no Brasil é do primeiro relatório que a Renctas lançou em 2001. A estimativa é de que o tráfico de animais silvestres retira da natureza brasileira cerca de 38 milhões de animais todos os anos.

Quais são os animais mais visados pelos criminosos?  

Todo animal tem, de alguma forma, um mercado para alguém. No Brasil, os principais animais traficados atualmente são os pássaros de belo canto (passeriformes) como o tico-tico, trinca-ferro; também os de ornamentação, como araras, tucanos, além de animais peçonhentos, como aranhas, serpentes e sapos. Também há muitos primatas como macacos, para fins de pet.

Como essas redes de tráfico geralmente funcionam?  

De cada 10 animais, apenas um consegue chegar às mãos do consumidor final. Nove animais vão morrer ou durante a captura ou no transporte, até porque para o traficante os animais são simples mercadorias. É um mercado muito cruel. Durante o transporte, os animais são camuflados para que não chamem a atenção da fiscalização. Eles são dopados ou anestesiados e, muitas vezes, passam mais de três dias sem alimento, sem beber água, em locais com pouca oxigenação e amarrados. Já acompanhamos operações policiais que encontraram filhotes de macacos embriagados com álcool. Os traficantes tinham injetado álcool ou cachaça na veia deles para que ficassem bêbados e não chamassem atenção. Você vê que o nível de crueldade dos traficantes de animais silvestres é altíssimo porque para eles o importante é vender o bicho. Também há uma exploração de comunidades pobres que vivem próximo às áreas de grande densidade de animais. Essas comunidades são cooptadas por esses traficantes para capturar esses animais, muitas vezes, em troca de comida. Isso também é um problema social. A cadeia toda do tráfico, da captura até a venda, envolve muita crueldade, exploração social e muitas vezes é o processo no qual um jovem tem o primeiro contato com uma atividade ilegal.

'Brasil começa a se destacar como importador de animais exóticos ilegais'

Arquivo Pessoa

Ao longo dos anos, você percebe uma mudança no perfil de pessoas que se envolvem nessa prática? 

O tráfico de serpentes no Brasil tem um público muito específico. Geralmente são jovens da classe média alta, pessoas de maior poder aquisitivo. Muitos afirmam que é um hobbie e não encaram como uma atividade ilegal. E como todo “colecionismo”,  vemos uma disputa para ver quem possui o animal mais caro ou raro. E, agora, tem crescido essa disputa de quem possui o animal mais perigoso, o mais venenoso. Isso é muito preocupante porque traz sérias consequências ambientais, sociais e de saúde e o Brasil precisa ficar atento porque essa não é a única naja que tem por aqui. Nós, na Renctas, já vimos dezenas de najas e outras espécies peçonhentas estrangeiras sendo importadas, principalmente espécies originárias da África, Austrália e sudoeste asiático. No caso dos consumidores finais há uma enorme variação de faixa etária. Você tem pessoas mais velhas, que até por um hábito cultural têm passarinhos em casa. As aves são muito comercializadas no País e grande parte desse comércio vem de criações próprias. Já os jovens se interessam mais por criações específicas como aranhas, serpentes, iguanas, anfíbios.

As operações que ocorrem pelo País são suficientes? 

Não, e por várias razões. O número de animais traficados é gigantesco e faltam mais recursos humanos, técnicos e financeiros aos órgãos de controle e fiscalização ambiental, seja federal, estadual ou municipal. Também há poucos lugares para abrigar os animais apreendidos, que normalmente são os centros de triagem de animais silvestres e que têm uma capacidade de atendimento insuficiente. No Brasil, o tráfico de animais silvestres é um mercado extremamente lucrativo, com baixo risco para o traficante porque a penalidade é muito fraca. Nossa lei ambiental em relação ao tráfico ainda é muito deficiente no que diz respeito à aplicabilidade e quando conseguimos aplicar, ela acaba sendo generosa com quem praticou o crime ambiental. Então, temos que promover também algumas mudanças na lei para uma maior eficiência.

“Quando você traz um animal diretamente da natureza, ele pode se transformar em uma ‘bomba’ biológica, transmitindo uma doença desconhecida”

 

Qual é o impacto que o tráfico de animais tem sobre o meio ambiente? 

Há consequências ambientais, sanitárias, sociais e econômicas. Um animal retirado da natureza perde a função biológica e há um enorme impacto na cadeia produtiva e alimentar porque se interferiu no ciclo da vida. Temos também a introdução de espécies exóticas em locais onde não deveriam acontecer, como animais da região amazônica que, ao serem capturados, fogem ou são soltos em uma área muito distante. Isso gera um desequilíbrio ambiental. Já o prejuízo sanitário é o fato de que os animais podem transmitir micro-organismos aos seres humanos, muitos até desconhecidos. Hoje, estamos vivendo uma pandemia da Covid-19 em que há uma forte suspeita que tenha começado na manipulação de animais silvestres. Sabemos que as florestas são hoje o grande e último reservatório de vírus desconhecidos pela Ciência e quando você traz um animal diretamente da natureza, ele pode se transformar em uma “bomba” biológica, transmitindo uma doença desconhecida, causando um grave problema de saúde pública. Além disso é um problema sério econômico porque muitas dessas doenças podem alcançar nosso rebanho nacional, como já aconteceu na gripe aviária, por exemplo. Em relação ao problema social, já havia comentado sobre a exploração de comunidades e contato de jovens com atividades criminosas.

Qual é o maior desafio para as instituições que atuam na proteção animal/ambiental? 

A maior dificuldade é financeira. Na Renctas não temos dinheiro do governo nos projetos e manutenção. Vivemos exclusivamente de doações, principalmente de pessoas físicas que acreditam no nosso trabalho, e buscamos pessoas que possam atuar como voluntários. Outro desafio é ter o tráfico de animais silvestres e a própria agenda ambiental como prioritária no País. Não adianta você tratar o meio ambiente como uma questão menor porque os danos ambientais para serem revertidos, quando isso é possível, custam muito dinheiro. Então, o melhor que se pode fazer é preveni-los. Falta esse olhar um pouco mais generoso para a causa ambiental no Brasil.

“No Brasil, o tráfico de animais silvestres é um mercado extremamente lucrativo, com baixo risco para o traficante porque a penalidade é muito fraca”

 

Como tem sido o trabalho da Renctas ao longo de duas décadas? 

Tenho orgulho em dizer que o tráfico de animais silvestres no Brasil tem uma história antes e depois da Renctas. Houve um tempo em que se falava pouquíssimo de tráfico de animais no Brasil e pouco se sabia dessa atividade criminosa.  E nesses 20 anos de trabalho, fizemos muitas campanhas, inclusive internacionais, atuamos em diversas áreas sociais pelo Brasil. Um trabalho muito duro para informar a sociedade sobre o que é o tráfico. Considerando que hoje 90% do comércio ilegal se dá através da internet, pois além de ser uma grande vitrine, ela oferece ao traficante a possibilidade do anonimato, a Renctas concentra esforços no monitoramento on-line e as informações são repassadas aos órgãos competentes. Em cinco meses, a Renctas se infiltrou em 250 grupos de WhatsApp no Brasil dedicados ao comércio de animais silvestres e exóticos, acompanhando mais de 3,5 milhões de mensagens. Acesse ww.renctas.org.br para mais informações.

Fonte: https://www.folhadelondrina.com.br/ponto-de-vista/brasil-comeca-a-se-destacar-como-importador-de-animais-exoticos-ilegais-3000843e.html

 

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